• Armazém na Estrada

Mulheres Cansadas

Atualizado: Nov 11

um ensaio por Érica Sakaki

O alvorecer de uma Oficiala de Justiça e Mãe


5:47 da matina. Um cutucão. Abri o olho. Meu filho de 11 anos dispara: “mãe, o que é tempo psicológico, hein?, esse é o assunto da minha prova de produção de texto hoje!”. Tentei puxar o fôlego. Ainda vendo tudo embaçado, cambaleio para fora da cama. Deixa eu pensar. Parece que tinha adormecido há poucos minutos, como pode? Fazer o café. Sacudir o outro filho adolescente: ô sono pesado! Botar o café. Pronto. Os dois na aula online. Abri o PJE (Processo Judicial Eletrônico - software do Judiciário) e separei as certidões do dia; enquanto o sistema carregava, googlei : “O tempo psicológico é o tempo individual. Ao contrário do cronológico, não é igual para todos, cada pessoa (personagem ou narrador) sente a passagem do tempo de uma forma diferente. Isso significa que existe uma influência de emoções, situações, sentimentos, que determinam essa passagem do tempo.” No Instagram um post em letras garrafais dá conta do quanto as mulheres andam física e mentalmente cansadas. Exaustas. Suspiro. Sempre foi assim, a gente sabe. A História nos conta que a responsabilidade pelo trabalho doméstico foi imposta às mulheres de todas as classes, e isso não se alterou quando passaram a fazer parte do mercado de trabalho. Então, tome jornada dupla, tripla, aguente! Que estude, que trabalhe (produtivamente) e cuide da casa (com eficiência!). Dê conta dos filhos, do marido, dos doentes, dos idosos e não esqueça, fique linda (se possível, magra)! Administre toda essa profusão de tarefas, ainda que necessite da ajuda de outra mulher (negra? pobre? precarizada?). O problema é que a cada dia que passa a conta não fecha mais. O relógio saiu do pulso. Foi engolido. Pesa dentro da cabeça, está colado às nossas costas e o tempo (o cronológico mesmo) escorre, veloz, veloz, cobrando. Por todos os lados uma incômoda sensação de nunca “estar em dia” com todas as obrigações, “não ter produzido” o suficiente. Vivemos na Sociedade do Cansaço cujas marcas são a hipervalorização do desempenho, a positividade, diz o filósofo Byung-Chull Han, mas isso nos deprime. Com a pandemia e as medidas de isolamento social essa realidade se intensificou e a sensação é de que as responsabilidades se multiplicaram; agora os espaços da casa, da escola e do trabalho se confundem e não há mais limites precisos, tudo se mistura e se confunde. Ah, mas quem mandou vocês queimarem o sutiã?-dedo na cara de um- “pra quê foi assumir cargo de homem?” – ironia de outro. Chega a ferir os ouvidos. O que eu sei é que os obstáculos que enfrentamos na vida somente pelo simples fato de sermos mulheres são grandes. Estamos sempre à prova, somos testadas, questionadas, julgadas, confrontadas, diminuídas, desvalorizadas. Cansa demais. Não é mole. Mas, a gente não se abate (ou pelo menos tenta). Tudo o que precisamos é de empatia e RESPEITO. Do resto, a gente dá conta ou então, limite.


Érica Sakaki é trabalhadora do TRT5, Oficiala de Justiça,

mulher, mãe e apaixonada pelo mundo da escrita.

Página do Instagram: @palavradefuracao

245 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo