• Armazém na Estrada

Ferida nascida aberta

uma crônica por Waleska Barbosa


Sangrei.

E então era isso? Então foi isso?

Acordei sangrando.

E entendi tudo. Mas me puni um pouco por ter sido pega desprevenida. Não ter enxergado os sinais. Não estar conectada o suficiente para saber que sangraria e tudo o que sentia e deixava de sentir seria explicado logo mais. Ao sangrar.

O sangue veio sem dor. E até duvidei dele. Quem o teria deixado ali? Olhei de novo. E então, entendi tudo.

O sangue escorria de mim. Ferida nascida aberta. Fenda própria. Buraco profundo. Cicatrizado corte. Sempre aberto, no entanto. Sempre cutucado para, casquinhas secas retiradas, logo abrir-se de novo – ferida nascida aberta.

Sangrava sem dor. Ao tempo em que o escorrer do líquido vermelho me fazia traduzir as dores, igualmente silenciosas, de ontem, dos ontens recentes.

Então por isso quis sumir. Então por isso não olhei para a janela ou não vi o cenário que, transparente, me oferecia. Não senti minha alma – largada que me deixara, corpo atônito, vazio de tudo, sem aguentar-se, sem aguentar-me. Quedei-me sempre que possível em cadeiras, camas, pensamentos inertes e vultosos. Cheios de mandíbulas e dentes e mãos e cabeças.

E eu pequena. Invisível. Reclamando os ais das dores que eu buscava enumerar. Eram tantas. E mesmo quando tentei domá-las, mesmo quando tentei, sobrou-me um amargo. Um resquício. O sucesso não era absoluto. Havia ali, um amargo. Uma trava. Um resquício.

Hoje.

Hoje, apenas.

Acordei sangrando.

Então por isso pensei na minha mãe? Quis lhe telefonar. Pedir sua benção. Que rezasse a Salve-Rainha que só as mães poderiam rezar pelos filhos seus. E ela ainda podia fazer isso. Seria até mesmo motivo de muita alegria. Ofertar o possível no meio da distância. Repetir a oferta da vida toda. A fé. A oração. A cura no milagre. A se dar em mim.

Então por isso pensei na minha filha? Pessoa nova que se descortina diante de mim – que me obriga a conhece-la, reconhece-la, dividir de nós o que é meu. E faço espelhar-se, refletir-se. Silenciar antes do grito. Abraçar antes de virar as costas. É só alguém que se descortina diante de mim. E é minha filha.

Pensei nas três. Eu. Minha mãe. Minha filha. Frutos do estancar do sangue. Dádivas do sangue jorrado – quando nem mesmo o entendíamos.

Lembrei da vez primeira. Meu irmão rindo. Dizendo que eu “misturei”. Eu sem saber se aquilo era bom ou ruim. Envergonhada. Divertida. Mistério que começava ali. Há 34 anos.

Há 34 anos eu sangro.

Abro as pernas. Sangro. Fecho as pernas. Sangro. Durmo. Sangro. Acordo. Sangro. Caminho. Sangro. Por sorte, passou aquela sensação de ter um caminhão dentro das pernas. Aquela certeza que o meu segredo de mulher, meu mistério periódico era completamente desvendável e passível de ser visto a olhos. Nus.

Acordei sangrando.

E vi o ontem me olhando irônico.

Não foi entendido.

Hormônios valentões bradando seus músculos para o alto.

Dizendo-se vencedores. Ontem.

Mas hoje.

Hoje acordei sangrando.


Waleska Barbosa é escritora e jornalista.

Idealizadora do 'Julho das Pretas que Escrevem no DF'

Autora de 'Que o nosso olhar não se acostume às ausências' (Arolê Cultural; 2021)


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