• Armazém na Estrada

Lavar a alma

uma crônica por Waleska Barbosa


Ela enche os carrinhos.

Descubro isso vez em quando. Quando reparo neles por desaviso.

Enche os carrinhos.

E os seca.

Na medida em que os desejos se realinham.

Enche novos carrinhos. Outros. Diversos.

Na medida em que conhece outro aplicativo.

Ela enche os carrinhos infindos – posto que sem paredes de ferro e sem rodinhas e sem segurador – posto que apenas imagens.

Os olhos brilham.

A conversa vem miúda. Tentando não se fazer ouvir. Nem dar a conhecer suas intenções. Mas se queria grito. E ordem. Grito de ordem.

Como dizer aquilo sem alertar para que está fazendo outro uso – além do permitido – da Internet.

Como dizer aquilo sem denunciar que as propagandas – antes proibidas – agora eram suas meninas dos olhos.

Como dizer aquilo sem chamar atenção para o fato de que, sim, seria uma consumista ou apenas uma consumidora – se pudesse.

Por isso enche os carrinhos.

Virtuais.

Em um fingido realizar de sonhos. Eram suas escolhas. Seus carrinhos. Seus produtos. Seus novos aplicativos. Sim, senhora. Até que os desejos se realinhassem.

Quando descubro – ao reparar neles por desaviso. Ou curiosidade. Ou vigilância.

Os olhos meio que marejam – mas preciso ser forte. Escolher as lutas. Evitar sentir o que não é meu. É do outro. Da outra.

Pego-me assim. Meio que enternecida.

Coisas miúdas. Coloridas. Baratas. Se em unidades. Já meio salgadas. Se juntas.

Coisas chinesas. Coisas de realinhar desejos. Coisas que piscam. Coisas que brilham. Coisas que curam.

Coisas. Coisas. Coisas.

Detesto coisas.

Nunca me dei bem com elas. Nunca soube definir sua quantidade ideal. Nunca pude pagar por sua melhor qualidade. Entanto, me abarrotam. Me vencem. Me cansam. Me vencem pelo cansaço.

Quando foi que juntei tantas. Quando desaprendi a dar-lhes fim. Dar a elas. Um fim. Dar. Elas. As coisas que me esmagam. Que tiram de mim as forças. Que me tornam tão miúda quanto ela.

Eu não sei arrumar essas coisas.

Eu não queria estar tão sozinha.

Eu queria alguém para arrumar comigo. Para arrumar para mim.

Essas coisas.

Que apenas desloco de lugar. E continuo suspirando. E continuo me exasperando ao encará-las. Ser por elas furtivamente encarada. E descoberta. E desperta. E desnuda.

Você não sabe arrumar essas coisas.

Você está tão sozinha.

Não há ninguém para arrumá-las com você. Para você.

Amanhã.

Depois.

Segunda-feira.

Tempo tempo tempo tempo.

Anos se passam.

E elas estão lá.

Cada dia mais esmaecidas.

Sem significado.

Não queria mais dar significado a nada.

A vida é agora.

As coisas são antigas. Estão quebradas. Empoeiradas. Nunca foram suas. Minhas. Desconheço o motivo de tê-las cuidado. Acumulado.

Os carrinhos cheios.

Os carrinhos vazios.

Os carrinhos renovados.

A conversa miúda.

A fustigar meu caos.

Batendo nas minhas costas. Na minha cara.

Açoite.

Flagelo.

Queria que (me) entendesse. Agora. Não é tarde. Nem é cedo.

As coisas não salvam.

Não revigoram.

Não duram.

Perdem-se.

Misturam-se.

Quebram-se.

São atiradas.

Queria que deixasse de se importar com os carrinhos. Desistisse de enchê-los.

Entendesse que o mundo é vasto. Nunca haverá tudo. Nada preenche o que se busca.

E a busca está errada, afinal.

Não é para encher carrinhos.

É para preencher outros vãos.

Com coisas inquebrantáveis.

Que possam ser levadas por dentro.

Para que lavem a alma.

Perdão por eu não entender. Um dia você mesma entende isso. Eu acho. Eu não sou boa em realizar sonhos.

Brinque com o fingimento.

E não me conte nada.

Os olhos meio que marejam.

Por me sentir uma mãe.

Incapacitada.


Waleska Barbosa é escritora e jornalista.

Idealizadora do 'Julho das Pretas que Escrevem no DF'

Autora de 'Que o nosso olhar não se acostume às ausências' (Arolê Cultural; 2021)

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