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Cantos de trabalho: Bois, batas e cantigas

Atualizado: Ago 11

(NOTÍCIA ESPECIAL)

DOCUMENTÁRIO de Sandro Santana estreia na programação da TVE/BA no dia 11 de agosto, às 20h30 (www.tve.ba.gov.br/tveonline). O filme foi premiado no edital Bahia na Tela (2017) com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual.

O que são cantos de trabalho? Quais são os cantos de trabalho dos lavradores do sertão baiano? O que são as batas e os bois de roça e roubado, estes cantos entoados durante as atividades de roçagem, plantio e colheita? Quem são estes homens e mulheres que guardam na memória e no corpo essas músicas tradicionais? Como aprenderam essas músicas e criaram novas narrativas que expressam sua visão de mundo e coletividade?


Estas são algumas das perguntas que o documentário “Cantos de trabalho: Bois, batas e cantigas”, de Sandro Santana, nos ajuda a identificar e compreender. O filme, premiado no edital Bahia na Tela, com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, estreia na TV Educativa da Bahia (TVE) no dia 11 de agosto, às 20h30. O filme também poderá ser visto online através do site da TV (https://www.irdeb.ba.gov.br/tveonline/) no momento da sua exibição, não ficará hospedado no portal. Apesar de premiado em 2016, nos estertores do governo Dilma Rousseff, os recursos só foram liberados, após muitas batalhas, no final de 2020, filmado em três fins de semana de novembro e finalizado em março de 2021.

Os cantos ancestrais do sertão baiano, mais precisamente das comunidades de Lagoa da Camisa (Feira de Santana), Boa Vista 1 e 2 (Serrinha) e Licuri (Ichú), entoados por trabalhadores rurais durante a preparação, cultivo e colheita nas lavouras de mandioca, feijão e milho e outras atividades rurais são “arquivos vivos” da memória de um país desigual e que tem vergonha e temor das suas raízes ancestrais. Prolíferos no passado, hoje estes cantos mais nos contam e perpetuam as suas histórias e tradições orais que teimam em não serem esquecidas do que fazem parte do cotidiano dessas comunidades rurais, cujas tradições e ancestralidades sincréticas perdem espaço para o neopentecostalismo e o desejo do subemprego nas grandes cidades por parte das gerações mais jovens.

Mais do que elencar estes cantos, Santana, que já desenvolve uma pesquisa sobre música e ancestralidade com estas comunidades desde o fim da década de 90, mostra neste documentário um povo sofrido, mas lutador. Surgem na tela narrativas fortes e duras, mas também poéticas, cuja musicalidade se faz presente no seu cotidiano, menos enquanto obras concebidas dentro do conceito tradicional de “arte” e mais próxima do sentido de como “oxigenação”, prazer e alegria de estar vivo. Os depoimentos e performances nos mostram pessoas que recusam as lamúrias e não abdicam dos prazeres e alegrias dos cantos, das danças e da vida em comunidade. Como fica evidente no depoimento de D. Maria Carmelita, da comunidade Boa Vista 2, “Eu sou uma ‘pobre-rica’. Pobre de dinheiro e rica de amor, de felicidade. A felicidade não é só dinheiro. A felicidade é você olhar pra essa casa de farinha e ver tanto amigo seu e você tá rica ali. O dinheiro não é tudo! O que é tudo é você ser feliz, brincar, sambar e pintar o que você gostar. So não o que não presta”.

Desafios - O caráter lúdico dos cantos não só aliviam e dão ritmo ao trabalho. Mais do que isso, também fazem aflorar rivalidades e disputas entre os principais criadores. Assim como nas rodas de repentistas, partido alto ou nas batalhas de hip-hop, muitas batas eram formadas para o enfrentamento de mestres de comunidades diferentes. É o caso do mítico duelo entre Carlito, da Fazenda Boa Vista, e Mestre Véio, famoso sambador da Lagoa da Camisa que conta detalhadamente o embate no documentário. Após um longo verso, Carlito “convida” Mestre Véio para uma bata na sua residência. Desafio prontamente aceito pelo Mestre. Após duas trocas de versos, Carlito “quebrou o pé” (perdeu o verso). Sem dó nem piedade, o Mestre deu o golpe final:“Eu vim cantar hoje aqui de promoção

Carlito, tu não sabe, pode me pedir perdão.

Me peça o ´perdão que te perdoou como é

Carlito, tu não sabe, tu joelha em meus pés”


Universo Feminino – As imagens e sons registrados neste documentário também colabora para a quebra de um mito da mulher sertaneja que apenas trabalha e tem seus desejos reprimidos. Como também fica evidente no filme, o machismo e a relação patriarcal é opressora e onipresente nas comunidades ainda hoje. Mas nos blocos “cantigas” e “batas”, cuja hegemonia é feminina, podemos perceber nos seus versos e danças a expressão do desejo e não apenas do ser idealizado. Um bom exemplo é a canção “Terreiro novo, quero vadiar”, puxada pelas agricultoras Maria Carmelita, 68, e Dona Bibi, 67, durante a “Ranca de mandioca”, na Comunidade Boa Vista 1:

“Terreiro novo, quero vadiar

Meu amor chegou, quero vadiar

Sapateia moreninha, quero vadiar

A sala é minha, quero vadiar”


Boi de Roça é o nome dado pelos agricultores para um tipo de canção entoada por trabalhadores durante o preparo da terra e plantio com foices e enxadas. Também conhecido, em outras regiões do Brasil, como bois-de-cova, estes cantos podem durar horas, até mesmo uma manhã ou tarde inteira de trabalho, e retratam os problemas do cotidiano rural. Os camponeses se agrupam em duplas – as chamadas parelhas. Uma das duplas puxa o canto e as outras respondem.

Sem condições financeiras de contratar mão-de-obra para o trabalho em suas roças, os lavradores se reúnem em mutirões, também chamados de adjuntos ou batalhões para a roçada, plantio e colheita de cereais. O batalhão pode ser promovido pelo próprio roceiro ou fazendeiro que necessite dos seus benefícios. E há também o “Boi Roubado”, que é aquele preparado em sigilo, sem o conhecimento da pessoa a ser beneficiada com o mutirão. O desenvolvimento do batalhão é regido por normais cerimoniais.

Os homens trabalham na terra, cantando bois de roça, enquanto as mulheres preparam as refeições servidas numa lona estendida no terreiro. Ao final do dia, todos cantam juntos e preparam-se para a troca de bandeiras. O “cantador da bandeira”, o responsável por levar a bandeira vermelha de volta do caminho da roça, puxa os versos enquanto os outros respondem. Ao chegar à casa do dono da roça, o “cantador” entrega a bandeira vermelha e recebe a bandeira branca, sinônimo de gratidão. O cantador da bandeira é o sujeito que conhece em detalhes o ritual e, em geral, costuma ser também notório conhecedor de sambas e batuques, formas musicais que sucedem a cantoria da bandeira do batalhão.

Quanto ao “Boi Roubado”, de caráter mais lúdico, este mutirão pega o dono da roça de surpresa. Durante a madrugada, um grupo de trabalhadores se reúne e disfarçadamente entra na roça escolhida para fazer o mutirão, disparam fogos e começam a puxar uma chula. A partir deste momento, “o boi está roubado” e só resta ao dono da casa matar alguns animais para o almoço e a sua mulher preparar o café.

Ao lado dos “batalhões” outra atividade produtiva acompanhada de música comum na região são as chamadas “batas” de feijão e de milho – uma música marcadamente rítmica, cantada com o uso de porretes de madeira para descascar o feijão e descaroçar o milho. As “batas” de feijão e de milho acontecem em quase todas as comunidades que cultivam estes grãos. Além de ser uma necessidade, a bata é um momento de reunião e congraçamento dos lavradores e familiares, onde todos se juntam, com muita alegria, para agradecer pela colheita.

Forma-se uma grande roda em volta do monte de feijão e os homens, armados de porretes, vão separando os grãos das vagens e cantando batuques ao ritmo das porretadas. Com os pés, os “bateiros” vão ajeitando as partes que escapam da arrumação. Enquanto isso, as mulheres aramadas em fileiras, vão peneirando as cascas que restaram. Nas batas de milho começam por descascar o milho entoando cantigas de roda com versos tradicionais e de improviso e, a seguir, todo o trabalho é feito embalado por batuques e no ritmo das porretadas nos grãos. O objetivo é separar os grãos do sabugo, o que torna a batida do porrete mais seca.

As batas são momentos de muita alegria e festividade. Um momento para agradecer a colheita e por todos poderem estar juntos. Daí é comum que depois das batas acontecer o samba de roda e brincadeiras com cantigas de roda, em versos que falam do trabalho, do amor e saudades, como no caso de uma das músicas mais famosas da Quixabeira, a cantiga de roça da Comunidade da Lagoa da Camisa, Amor de Longe:


“Amor de longe, benzinho/

É favor não me querer, benzinho

Dinheiro eu não tenho, benzinho/

mas carinho eu sei fazer até demais”



Este filme foi premiado no edital Bahia na Tela 2017 e realizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) da Agência Nacional de Cinema e teve pré-licenciamento aportado pelo Governo do Estado para serem exibidos na TVE. A sua pesquisa foi resultado da premiação no Edital Setorial do Audiovisual de 2016 do Fundo de Cultura do estado da Bahia.

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