• Armazém na Estrada

Autobiografia pandêmica

Atualizado: Out 22

uma crônica por Waleska Barbosa


Fotografia de Manuela Cavadas

Fiel a uma lentidão intrínseca posso dizer que só agora chego a sentir os efeitos excruciantes que há muito, cientistas e jornalistas, valendo-se do que concluem os cientistas, deram conta como sequelas da pandemia por Covid-19. Na saúde mental das pessoas. Vivi, nesses quase dois anos, algumas fases, que nem sempre acompanharam, ou pelo menos não encarei assim, o que ia acontecendo mundo afora. Em todas elas preguei o meu bordão: a militância pela sanidade.

Fui no miudinho, restringindo e afunilando – para além do que obrigatoriamente ficou do outro lado da peneira. Retido. Como os abraços, os sambas, os encontros, as viagens, o trabalho em seu local original, a escola e as outras atividades de uma filha na pré-adolescência, os afetos em desfrute ao ar livre. As coisas da vida, enfim. Da vida como ela era. E seguia considerando que ia bem (dentro de um possível que tenho resistência em definir sem parecer leviana), no âmbito pessoal.

Aqui nas quatro paredes. Dendicasa. Ia bem. Mas não isenta, desinformada, omissa ao que a pandemia ia espraiando em um Brasil já combalido e que piorou tanto.

Ocorre que, agora, após esses quase dois anos, tenho declarado que meu projeto, coitado, fracassou. Não de todo. Espero que não. Mas já não me sinto com total controle sobre o leme. Ando resvalando em tormentas, tsunamis, tempestades de areia, granizo, neve. Ando perdendo a direção. Ando vulcão em erupção. Eventos climáticos extremos. Enxurrada. Seca. Mais intensos. Crise hídrica. Ando Amazônia desmatada. Ando Cerrado queimando. Ando caatinga sem vaqueiros. Ou paraliso. Não ando. Deito e durmo. Vazio como o mundo em Big Bang. Ocaso.

Escreveria na minha pele. Cuidado. Frágil. Este lado para cima. Entanto, sigo chacoalhada. Virada. Revirada. Cabeça pra baixo. Sopapo. Solavanco.

Tenho precisado pedir compreensão às pessoas – quando perguntam por aquele projeto que eu tocava ou tocava com elas. Tenho solicitado que me digam as coisas com simplicidade e didatismo – se possível em tópicos ou como se falaria a uma criança bem pequena por que não deve atravessar a rua sozinha. Tenho confessado um autodiagnóstico – Síndrome de Burnout – por favor, me confirme se o que eu entendi foi o que foi dito. É isso? É isso mesmo? Tenho me desculpado por lapsos de memória, por desatenção, por atraso, perda de compromisso, perda de interesse. Tenho percebido aquele estado de ausência que tanto vi minha vó entrar quando tinha mais ou menos o dobro da minha idade.

Surpreendo-me com um fone de celular no ouvido (só um lado, que o outro está quebrado), o computador com o som ativado, a tevê ligada, um documento no colo. Começo várias atividades ao mesmo tempo e vou passando de uma para outra. Me inscrevo em cursos que já não consigo acompanhar. Sou surpreendida por e-mails de aceites ou negativas para seleções de mentorias, treinamentos e afins, nos quais me inscrevo como que movida por uma descarga de adrenalina. Engulo vinte gotas do calmante Weleda que minha amiga me emprestou.

O que me fazia sorrir, não faz mais. A música que ouvia, não ouço mais. Minhas incursões amadoras na cozinha, não ocorrem mais. O livro que lia, não leio mais. As crônicas que escrevia, não escrevo mais. As selfies divertidas e os stories coloridos em madrugadas de “festa pessoal”, não posto mais. A cerveja que bebia (quase) não bebo mais. Amigues com quem falava, não falo mais. Visitas bissextas e proibidas para rever alguém, não faço mais. Ando pesada. Enxergando fardos. Talvez imaginários. Como vou saber? Discernimento também anda faltando. Procrastinação em alto nível. E eu nem tenho o poder/licença poética da escritora canadense Margaret Atwood para anunciar ao mundo, com total auto-acolhimento, como ela fez, que sou uma especialista em adiar tarefas.

Pois é. A pandemia em mim atingiu o nível máximo. Aquele que cientistas e jornalistas, valendo-se do que concluem os cientistas, deram conta – ligado a sequelas na saúde mental.

Sorte a minha que, ao sair das ausências, tal qual minha vó quando recobrava a fala e deixava a porta de vidro onde quedava-se olhando para o horizonte, consigo retomar as coisas da vida. Da vida como ela era.

E vou seguindo. Em estado de intermitência. Sorte a minha que nunca esqueço da força da amizade. E ela tem segurado as minhas mãos e me conduzido. Até aqui. Sorte a minha que, dentre todos os meus novos aprendizados online, um deles é que o estado de vulnerabilidade é tido como uma poderosa soft skill. E aqui estou. Desnuda.

Escreveria na minha pele. Cuidado. Frágil. Este lado para cima.


Waleska Barbosa é escritora e jornalista.

Idealizadora do 'Julho das Pretas que Escrevem no DF'

Autora de 'Que o nosso olhar não se acostume às ausências' (Arolê Cultural; 2021)

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