• Armazém na Estrada

Milagres Acontecem

um conto por Roberto Minadeo


Corriam os anos 1980, com a galopante inflação de dez por cento ao mês. Todo mês. A sensação de ficar mais pobre se fazia sentir de forma esmagadora. Os aumentos de salários não resolviam nada e, ainda por cima, alimentavam o dragão da espiral inflacionária. As pequenas firmas procuravam sobreviver a duras penas.

Paulistano da Vila Anastácio, Wagner tinha duas irmãs mais novas. Com menos de um metro e setenta, não se destacava nos esportes, apesar de notáveis esforços em jogar futebol e voleibol. As academias não estavam ainda em voga, o que indicava dificuldades para ele enfrentar a sua tendência de engordar.

Seu pai trabalhou por quinze anos na Sofunge, enorme fundição, responsável pelos melhores empregos do bairro. Depois abriu um pequeno negócio de autopeças. A família vivia bem, mas sem luxos como colégios particulares aos meninos. O pequeno empresário sonhava em ver seu filho se formar em engenharia e poder ajudá-lo.

Quase sempre o melhor da turma, Wagner aplicava suas energias nos estudos. Graças às boas notas, com frequência era chamado para resolver dúvidas de colegas, e suas aulas particulares já se indicavam quando alguém precisava melhorar as notas. Com esse estilo percorreu os três anos do Colégio, em preparação ao ingresso na vida universitária.

Wagner nascera apaixonado por automóveis; aprendera com seu pai a fazer ajustes em motores, não se importando em colocar a mão na graxa nas horas vagas. No que dependesse dele, os desejos paternos se tornariam realidade. Estava indo tão bem nas provas simuladas que fez durante o terceiro ano colegial que se permitiu o luxo de apenas prestar o vestibular para a Politécnica da USP. Nem se inscreveu a outras Universidades.

Se ninguém é perfeito, Wagner não constituía uma exceção: costumava ter algumas ideias não baseadas em experiências, nem tampouco em seus muitos estudos. De onde vinham? Do mais absoluto nada. Um dia implicou que o chocolate era proveniente da Ásia e não da América. Foi inútil que a maior parte de seus colegas de sala sustentasse a posição contrária. O mundo dos anos 1980 não oferecia as rápidas respostas da internet para dirimir tais problemas. Então ficou mantida uma posição contra a outra. Para sorte do teimoso Wagner, não havia nada em jogo além do seu ego.

Entretanto, não foi assim com a segunda fase do vestibular. Nada de se informar para saber o local da prova, nada de falar com seus colegas nem ler as matérias sobre o assunto nos jornais locais. Ele encasquetou que a prova seria na faculdade em que futuramente viria a estudar. Chegou ao meio dia, de ônibus, com apenas uma hora de antecedência à Escola Politécnica da USP, na distante Cidade Universitária – que, aliás, visitava pela primeira vez em toda a sua vida. Não dispunha de nada de valor na carteira para permitir uma corrida de táxi. Olhou a relação das salas à entrada do prédio, procurando o lugar para se acomodar. Foi fácil perceber que o seu nome não constava de nenhuma lista.

Primeiro milagre: um bedel supereficiente entrou em ação. Fez um único telefonema e em meio minuto disse que ele deveria fazer a prova no mesmo local em que fez a primeira fase, um colégio nos Campos Elíseos, próximo à Avenida São João.

Ao retornar ao longo da imensa calçada em frente à Politécnica, Wagner não teve tempo de ficar chateado nem assustado. Sequer chegou a pensar na hipótese de que teria de adiar o tão sonhado ingresso na universidade por um ano. Também não dispunha de condições para planejar a forma de resolver o seu problema. Andou por andar, com a única certeza de que ficar parado em nada o ajudaria.

Segundo milagre: chegando ao final da calçada, um senhor deixou o seu filho, que iria fazer a prova naquele local; ao externar um paternal desejo de sucesso se deparou com a angustiada expressão do pobre Wagner. Assim, tomou a iniciativa de fazê-lo entrar em seu carro e ocupar o banco traseiro.

Qualquer carro seria mais do que adequado em tal situação, todavia, tratava-se de um belo Mercedes-Benz dos anos 1960, um clássico 230S. Isso já seria suficiente para qualquer vestibulando se sentir transportado ao seu destino da melhor forma possível – em especial em uma ocasião tão crítica. Entretanto, não foi tudo: o carro era preto e se encontrava em impecável estado de conservação, e seu interior era de couro. Carros importados eram tão raros que o Wagner teria aceitado o convite de entrar na limusine até para ir à direção oposta de seu destino. O senhor perguntou o lugar em que faria sua prova.

O vestibulando falou do colégio em que deveria comparecer. O dono do carro disse que iria subir a Avenida Rebouças e descer a Rua da Consolação rumo à antiga Rodoviária de São Paulo, onde deixaria o outro filho, que ocupava o banco dianteiro e partiria ao interior paulista, para passar merecidas férias com os avós – após o primeiro ano na Medicina. Então, não havia incômodo algum em resolver o seu problema, e combinaram que ele ficaria na São João. Teve a classe de acrescentar que faria o mesmo por qualquer pessoa, pois seria a atitude que ele mesmo esperaria se algum dos seus filhos se visse em tal situação.

Sendo um domingo, hora do almoço dessa década tranquila, o trânsito era zero. O vestibulando ficou galvanizado pelo velocímetro, diferente dos carros que já conhecia, pois era um marcador que atuava em uma escala vertical, e não em um círculo.

Em vinte minutos, Wagner foi deixado na Avenida São João. Terceiro milagre: veio a pergunta básica sobre o trajeto final. Um ônibus seria inaceitável, aquele generoso personagem queria que a carona tivesse um desfecho em grande estilo, de modo que não dependesse de ninguém e que não apresentasse o menor risco de problemas de última hora. Nem precisou perguntar e já se apercebeu da dura verdade: o abençoado vestibulando não dispunha de recursos para o táxi, nem sequer para esse exíguo percurso de alguns quarteirões. Deixou com ele uma nota, que coincidiu com o valor da corrida.

Em vinte e cinco minutos tudo havia sido resolvido de modo tão célere que não houvera ocasião de surgir qualquer tensão na cabeça turva do Wagner, que se viu sentado na carteira que ostentava o seu nome com uma etiqueta. Foi dos primeiros a entrar na sala. Ainda teve à sua disposição mais de meia hora para relaxar e se preparar para a prova.

Entrou no curso de Engenharia, no que foi seu único vestibular. Estudou Mecânica, estagiando em uma montadora de automóveis. Nunca deixou de montar e desmontar motores com o pai – passando a ajudá-lo com mais afinco durante o tempo de estudos universitários. Seu pai se foi embora muito cedo, vítima de um derrame, todavia teve a felicidade em vê-lo preparado a assumir o negócio, e a cuidar da mãe e das irmãs.

Ao longo de toda a sua vida, apenas tratou desse milagre em contadas ocasiões à esposa e aos filhos – sempre recomendando o mais absoluto sigilo. Foram as únicas vezes em que ele foi visto emocionado.

Wagner deixou a teimosia de lado; continua forte como uma pedra; há dias em que trabalha quinze horas. O negócio familiar cresceu e propiciou as condições das irmãs cursarem a Universidade.


Roberto Minadeo é escritor.

Autor dos livros “Na Casa da Avó” e “Duas Irmãs”.

O conto "Armageddon" integra o livro “Sonhos fulgurantes”

(para adquirir: https://www.amazon.com.br/dp/B088P8D8RK)

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