• Armazém na Estrada

Em busca do consenso

Atualizado: Mar 12

um conto por Lodônio de Poiri

(ou O fruto das discrepâncias)


Ele estava convicto. Inabalável.

Assobiava e tamborilava no volante quando avistou o homem pedindo carona. A velocidade abaixo dos 40 km/h facilitou a parada do veículo.

- Vai para onde?

- À feira, antes da cidade.

O vento úmido e as nuvens acinzentadas anunciam chuva.

- Entra.

- Mas tenho alfaces e couves para levar. Pode ser?

Ele sai do carro; abre o porta-malas. O carona guarda as folhas.

A rodovia que interliga as comunidades rurais ao balneário é pouco movimentada; favorecendo a velocidade. Mas ele prossegue dirigindo abaixo dos 40 km/h. Em silêncio. O carona também calado.

As fazendas vão se apresentando em grupos. Primeiro, as agrícolas; segundo, as pecuárias; terceiro, os hotéis-fazenda. Depois do terceiro grupo de fazendas surgirá a feira livre. Logo após, a cidade – que antecede o balneário; nele, a efervescência turística.

- O senhor tem muita pressa?

- Não muito. Já estou agradecido pela carona. O ônibus ia demorar...

- Tenho que entregar um bilhete da minha mãe ao meu pai. Ele está nesse hotel-fazenda do evento...

- Ele trabalha aí?

- Não.

- Hum... O pai do senhor deve ser importante.

Ele nada comenta; segue viagem.

O carona, como todos os humildes moradores da região, sabem que aquele hotel-fazenda está reservado para o encontro de políticos, empresários e intelectuais vinculados ao novo projeto econômico de tecnologia rural do Ministério da Agricultura.

Na portaria do hotel-fazenda, apresenta a credencial providenciada pelos amigos.

- Fique tranquilo. Não vou demorar. O senhor pode esperar no carro.

- Tudo bem. Eu só tenho a agradecer pela carona.

O carro circula o estacionamento inteiro por duas vezes.

- Eu queria uma vaga sob o prédio. Para que o senhor não fique ao sol.

O auditório de congressos do hotel-fazenda é suntuoso. Um único andar. Sendo que o térreo é todo reservado a estacionamento. São milhares de metros quadrados construídos.

Ele para o carro próximo aos elevadores, no centro do prédio.

- Vamos fazer o seguinte: enquanto eu vou procurar meu pai, o senhor vai até o segurança e diz que o carro deu defeito. Por isso está parado em local inadequado.

- Mas... do jeito que estou vestido, o homem nem vai querer escutar o que tenho a dizer.

- Pode ir tranquilo. Diga que trabalha para um dos participantes do evento.

Ele sai do carro. O carona, constrangido, também.

Ele faz um aceno ao carona e insinua caminhar. Para. Deixou a chave cair. Agacha-se. Demora um minuto sob o veículo. Levanta.

- Aproveitei pra observar o defeito. – grita sorrindo.

Entre risos, o carona manifesta entendimento. Feliz e vaidoso com sua perspicácia, o carona vai ao segurança.

Ele continua convicto. Embora ansioso.

Caminha para uma das extremidades do prédio. O carona já conversa com o segurança; ele se afasta do prédio, rumo à portaria do hotel-fazenda.

- Bom-dia. O senhor permite a observação da paisagem na rodovia? Dizem ser muito bela.

- Com certeza, doutor. À vontade.

Ele caminha devagar. As mãos se unem entrelaçadas pelos dedos. Na rodovia, ele pensa no humilde lavrador a quem deu carona. Paciência. Ele está convicto e inabalável.

Ainda com as mãos unidas, estende os braços ao alto – espreguiçando-se.

O que a mídia, fatalmente, vai considerar ato terrorista com grande perda; ele aprecia como um item esplendoroso da paisagem: a flor da explosão desabrochando suas pétalas fumegantes.


Lodônio de Poiri é poeta e escritor. Um epicurista anarquista e vice-versa

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