• Armazém na Estrada

Celeiro Fatal

Atualizado: Mai 13

um conto por Roberto Minadeo

Sinopse:

Um julgamento impecável condena à perpétua um nefasto grupo de jovens, responsável pela morte do bando rival. Marcelo se sentia o mais fraco dos jovens do pequeno vilarejo em que vivia: os dois grupos se divertiam à sua custa. Certo dia, o celeiro de seu sítio foi invadido por um desses grupos, que fazia uma festa regada a álcool. Marcelo acordou de madrugada e se deparou com o celeiro incendiado. Tarde demais, um dos grupos jazia ali, tendo sido atacado pelo outro. A verdade, porém, pode ser tão diversa, que ninguém na comarca iria acreditar...

Conto extraído do livro Sonhos Fulgurantes (Amazon, 2020), adquira seu exemplar.



Chovera durante toda a noite e um forte vento continuava castigando e gelando a região por todo o dia. O julgamento caminhava rumo ao desenlace. Sem novos argumentos, parecia prosseguir apenas por força do hábito. Os fatos gritavam. Nenhum advogado quisera defender os réus; relutantemente, os defensores públicos entraram em cena, mas sem esboçar convicção. O vilarejo nunca se vira tão cheio: os inúmeros jornalistas de todo o país e os parentes das vítimas se haviam apoderado de todas as vagas disponíveis para hospedagem em um raio de cinquenta quilômetros.

Ao serem indagados do crime, todos os réus tentaram negar o óbvio. Foi pior do que assumir a culpa – presente em suas atitudes, no medo de que se lhes encarassem diretamente os olhos durante o interrogatório, e na falta de jeito com que manejavam as mãos. Nenhum dos membros do grupo ganhou a simpatia dos assistentes, nos quais havia tantas vítimas de suas travessuras. A tentativa de negar a culpabilidade não pareceu inteligente, reforçou no júri a convicção de que eram culpados.

Os doze jurados se reuniram para deliberar. Não sentiam o peso habitual que ocorre em momentos como esse, pois os fatos eram tão claros que não admitiam qualquer possibilidade de erro na sentença. Decidiram-se unanimemente pela culpa dos réus. Bastou recordar que a própria mãe do líder dos acusados, Dona Teresa, falou de forma contundente. Afirmou que durante anos reprovou a conduta de seu filho, em vão. Disse que lhe doía o coração, mas que seu desejo era ver todo o bando preso.

Narrou a primeira maldade séria do filho, aos nove anos, de bicicleta, numa descida: jogou-se sobre outro ciclista, um colega que subia; a vítima quebrou a clavícula e um braço, tendo faltado a dois meses de aulas e perdido o ano escolar. Dona Teresa chorou no julgamento, disse que, ao saber do fato, deu um forte castigo ao filho, procurou a vítima no hospital – triste por não poder ajudar em nada. Seu filho se divertiu ao ser castigado, e também ao saber da

reprovação da vítima, meses depois. Ela acrescentou que o filho forjara o bando e que perdera a conta das vezes em que fora à delegacia pedir clemência para livrá-lo. Ao sair, ria-se do trabalho dado à mãe.

Entrou em cena um antigo bedel da escola. Disse que os professores apostavam pela data da primeira prisão do garoto. Ele garantia que se tratava do pior sujeito que já vira, e que sempre dissera que teria vida curta fora das grades. Contou outra maldade: os laptops ainda eram caros, com muito esforço a escola comprara os primeiros, para a direção, a secretaria e a sala dos professores. O líder do bando quebrou todos.

Um jurado apontou que uma palavra de Dona Teresa era lei. Jamais enganara ninguém. Aliás, ao falar mal do filho em público, não deixava de fazer uma dura confissão de culpa, afinal ela era a mãe; se não esperava a possível regeneração de seu rebento, então, quem o faria? Enfim, era caso de fácil condenação.

A sentença por escrito foi entregue ao juiz e proferida por ele. Vários dos réus não ocultaram a decepção e lançaram débeis protestos de inocência. Alguns dos familiares dos culpados irromperam em choro. Vieram muitos aplausos da plateia.

*****

Uma pessoa assistia silenciosamente ao julgamento. Ouviu a sentença de modo impávido e se retirou, após receber discretos cumprimentos de conhecidos, inclusive de Dona Teresa. Marcelo fora o mesmo que, dois meses antes, chamara a polícia, iniciando o processo que hoje se coroava.

Um celeiro na fazenda, a cem metros da casa familiar, fora invadido de madrugada. Um grupo bebia e destruía objetos dos mais diversos tipos. Chegara a gangue rival. Não foi difícil dar conta dos bêbados. Não houve tiros, apenas se usaram facas. Os atacantes fugiram; veio um incêndio.

Bombeiros e policiais fizeram o possível. Nove jovens vítimas foram identificadas, gerando consternação na vila e em todo o Estado. Capas de jornais da região e de todo o país noticiaram o fato, exigindo rapidez nas investigações.

Dali até o julgamento tudo fluiu com bastante rapidez: a rivalidade entre os dois grupos era notória; as atividades das vítimas eram mais lúdicas do que as do bando rival.

Marcelo chegou à casa e noticiou a sentença aos pais. Ele, baixinho e covarde, se via no direito de comemorar: fora quem mais sofrera ao longo dos anos na mão dos dois bandos que aterrorizavam a pequena povoação e a zona rural.

Ele não poderia se esquecer do pior sofrimento recebido pela gangue condenada. Estava com a nova picape da família, tendo comprado três sacas de adubo, e voltando a casa com a namorada. Os endiabrados se postaram em plena rua, impedindo-o de avançar. Tiraram-nos do carro, no qual jogaram água; rasgaram as embalagens de adubo, espalhado por dentro e por fora do carro e sobre Marcelo, que apenas retornou a casa no dia seguinte. Infelizmente, não houve condições para o namoro avançar.

O grupo admitiu algumas barbaridades, defendendo-se com o argumento de que jamais feriram alguém, menos ainda um bando indefeso e ébrio. Alegaram que jamais não estavam familiarizados com facas e que naquela noite estavam numa festa distante. Caso essa versão fosse verdadeira, ninguém iria confirmá-la, pois sofreria represálias pelo resto da vida. Assim, o que poderia ter sido um eventual álibi salvador dos acusados foi perdido pelo conjunto da obra.

Para um júri assustado ante o crime cometido e ávido de buscar culpados, a debilidade da defesa e o depoimento de Dona Teresa bastaram para lavrar a sentença condenatória.

*****

Marcelo e os pais passaram a ter pesadelos após aquela noite. Não seria mais possível continuar vivendo naquela vila. Chegaram à conclusão de que deveriam vender a propriedade e fazer uma dolorosa migração rumo à cidade. Levaram a informação ao juiz e ao delegado: teriam que sair da região em que havia vivido durante décadas. Foram a um apartamento, de uma cidade próxima, de maior porte.

A venda da fazenda não foi em boas condições: a pressa é inimiga dos bons negócios e amiga dos aproveitadores. Seus pais já não estavam mais cuidando da fazendo, tarefa de Marcelo. Ao vender suas terras ancestrais, a família renunciou à própria liberdade e ingressou num mausoléu, materializado em poucos metros quadrados de um apartamento no terceiro andar de um decadente prédio sem elevador. A mudança também representou um rito de passagem para Marcelo, que deixou para trás o tempo em que fora feliz nas lides do campo – por ser um pequeno empresário rural e dono de seu tempo. Teria que estudar para ingressar na universidade.

A definição de crime perfeito começa na mente de quem o cometeu; aliás, de quem sabe que nada fez de errado, sequer cogitou fazer. Marcelo jamais se viu culpado de algo, então de nada se arrependeu.

Perfeito: categórico, acabado, completo, cabal. Perfeito: impossível de ser desfeito. Imune ao pobre direito de leis, advogados e tribunais.

Crime!? Como!? Nunca ocorrera nada digno desse nome. Um crime exige vítimas. Ora, a vítima fora ele, sem qualquer sombra de dúvida: ainda sentia calafrios à noite, em meio a indizíveis pesadelos. A família tivera que vender o sítio do qual vivera por décadas, indo a um futuro incerto em outra cidade. Ele perdera seu estilo de vida, e toda a sua preparação para assumir a propriedade familiar foi por água abaixo.

Ele, criminoso?! Quase havia sido morto por uma horda de pérfidos patifes, violentos e alcoolizados! Além disso, caso Marcelo fosse eliminado, com certeza as próximas vítimas teriam sido os seus indefesos pais!

Um crime requer motivação. Ausente em Marcelo: o que ele ganhou senão encrenca sobre encrenca? Onde estava agora a amada fazenda passada de geração em geração até chegar a seus pais? Alguém de posse de sua sanidade mental seria capaz de afirmar que o seguro poderia cobrir tantos custos imateriais?

Culpado? Ele? Ora, ninguém cogitou que alguém sozinho tivesse feito tamanha barbaridade. E caso tudo tivesse sido obra do mais nefando elemento sobre a face da terra, ele encabeçaria toda e qualquer lista dos insuspeitos.

A sua reconhecida fraqueza o tornou invisível à ação da polícia e à da justiça. Apenas prestou os rápidos depoimentos a que foi chamado. Inevitável, era a vítima, acionara a polícia e os bombeiros, tudo ocorrera em sua casa, tivera um celeiro destruído e, com ele, a sua vida de pequeno empresário rural.

Ninguém jamais duvidara dele, um simples camponês, incapaz de mentir, e que publicamente sofrera com as violências de ambos os grupos.

Uma dúvida existiu na mente de Marcelo logo após o episódio: por que o maldito bando trucidado havia escolhido o seu celeiro para a festa fatal? Nenhuma resposta melhor que esta: a estrada principal ficava a poucas dezenas de metros da construção, que, por sua vez, era próxima à cidade. Enfim, azar sobre azar. Para todos.

Ironia incrível: após a fatalidade, as vítimas no celeiro foram tidas por “coitadinhos”. Não podiam falar, nem se defender. Logo, tampouco seriam acusadas de nada. Marcelo captara isso instantaneamente. Ainda bem que os verdadeiros culpados foram logo encontrados, antes que o crime se tornasse um problema insolúvel.

Marcelo nunca se fizera de vítima e via que tal atitude não conduzia a lugar algum. Podia ser fraco, mas nunca ficara deitado curtindo as dores de alguma das muitas surras a ele infligidas por qualquer um dos dois bandos.

*****

Uma noite, ouviu algo de estranho no celeiro. Assustado, levantou-se, tirou rapidamente o pijama e colocou a roupa de trabalho. Saiu de casa e fechou a porta com a chave. Chegou à porta da construção e se deparou com um espetáculo tétrico.

Reinava o mais absoluto caos: lá estava um grupo de nove jovens, entre rapazes e moças – número do qual tomou conhecimento somente pela imprensa, horas depois. Todos mais fortes que ele, turbinados na academia da cidadezinha mais próxima. Estavam com garrafas quase vazias nas mãos. Também os jornais disseram que haviam misturado energéticos com uísque e vodca. Todos

apresentavam olhos injetados e esbugalhados e nenhum deles era dono do que fazia.

Marcelo jamais se exercitara em artes marciais. Sempre evitara as habituais brigas da vida de estudante. Jamais empunhara qualquer arma. Um rápido olhar o fez perceber o estrago que haviam feito. O trator estava sem o painel. O armário que era o seu orgulho não contava mais com as gavetas em seus lugares, e milhares de itens jaziam pelo chão. A música reinante o aturdia.

Sua inocência o levou a pensar que poderia chamá-los à razão. Postou-se no centro do celeiro e pediu que desligassem a música. Foi o seu único apelo atendido. Lembrou que alguns objetos de valor já haviam sido danificados. Chegou a dizer que todos eram conhecidos e que, se saíssem naquele momento, não haveria denúncia à polícia nem enfrentariam quaisquer problemas posteriores. Qualquer diplomata tentando deter os cruéis avanços de Gengis Khan teria sido mais bem-sucedido do que Marcelo falando àquele grupo ignaro. Todos os nove riram-se dele, sacaram armas brancas ao mesmo tempo e começaram a avançar em sua direção.

Ocorreu o inesperado. O pacato Marcelo, o alvo de todas as burlas da vila por ser medroso e fraco, e por jamais ter enfrentado as agressões e ofensas sofridas, se transformou. Todo um litro de sangue foi arremessado em seu cérebro pela adrenalina – algo que jamais sentira e que representou uma sensação de poder totalmente nova para ele. Seus braços se enrijeceram, suas pernas se viram prontas para desferir um ataque inédito em sua vida.

Ele nunca lutara, não conhecia regras de combate, mas intuiu que todos detinham uma vulnerabilidade óbvia: estavam ébrios. Sua sobrevivência dependeria de se aproveitar disso rapidamente. Não poderia se dar ao luxo de esperar. Rumou ao mais próximo dos atacantes, chutou-o na altura dos rins e se apossou de sua arma. Surpreendeu-se: foi mais fácil do que previra. Contudo, vislumbrou que de nada adiantaria ter uma arma na mão e um membro do bando desarmado e vindo para atacá-lo, pois este jamais esperaria que o covarde Marcelo fizesse uso da arma. Caso esse primeiro membro do grupo o atacasse, haveria tempo para que os outros, armados, se aproximassem e fechassem o

cerco final sobre ele. Então, com uma faca em mãos, ele se viu obrigado a investir contra seu ex-dono, para tirá-lo de combate.

A mesma cena se repetiu por mais oito vezes: alguém se aproximava, ele golpeava defensivamente, girava e se afastava. O número nove foi mágico. Um a mais e ele não teria tido tempo para lidar com a situação.

A ninguém feriu mortalmente, apenas tirou de combate – eliminando o perigo reinante contra si e sua família. Mais ainda: o medroso Marcelo, que nunca usara objetos cortantes além de facas de cozinha, vencera nove gatunos experientes no uso dessa arma.

Um dos membros do grupo, ferido, resvalou num lampião, derrubando-o e provocando o incêndio que logo destruiu o celeiro, devido à abundância de palha seca no chão. As faíscas e o calor assustaram Marcelo, desesperado ao ver o início da destruição do amado celeiro e ao prenunciar o término de sua feliz vida no campo. Viu que nada mais o poderia reter naquele trágico local e que não conseguiria retirar nenhum dos feridos, que jaziam sobre a palha, rapidamente em chamas.

Voltou à casa, tomou um banho frio, esperando os próximos passos. Pela janela contemplou as negras labaredas lambendo o trabalho de sua família e dele próprio. Não evitou lágrimas pelo que estava presenciando.

Não deixara pegadas, usara o velho caminho cimentado entre a casa e o celeiro, na ida e na volta e calçava tênis que não se sujaram. Por via das dúvidas, os limpou para retirar eventuais traços do celeiro. Calçou as habituais sandálias de couro usadas somente em seu quarto. Acordou os seus pais. Ligou para a polícia e os bombeiros, a quem recebeu em silêncio. Colocou-se à disposição dos interrogatórios que certamente viriam a se suceder. Até se lembrou de cumprimentar os heróis quando terminaram de controlar as chamas.

Transcorrida uma hora das primeiras providências oficiais ao lado de alguma autoridade, seguiu o conselho da mãe: tomou um forte café que ela acabara de fazer.

Depois veio uma longa madrugada, que se prolongou manhã adentro. Guardas foram deixados para a exausta família poder dormir. Era quase meio-dia; o pior já se passara: os corpos já haviam sido levados, os bombeiros

debelaram o incêndio e os peritos marcaram um perímetro em volta do celeiro, pois seriam feitas mais detalhadas análises do local. Não foi fácil conciliar o sono numa hora dessas, em especial depois de tantas solicitações externas que tornam as mentes normalmente excitadas.

Ao saber que havia vítimas lá dentro, fingiu-se surpreso, com uma teatralidade não natural, que ele mesmo não se reconheceu. A sua inocência jamais foi questionada. Afinal, valentes eram as gangues – uma presa para sempre e a outra morta. Marcelo era o fracasso: fraco, medíocre nos estudos e sem grandes ambições. Fizera muito ao chamar a polícia e os bombeiros logo ao início do fogo.

A mais leve alusão, aventada em tom de murmúrio por ele mesmo à polícia sobre a eventual culpabilidade do bando rival, foi celeremente aceita. Todos foram presos, julgados e condenados. Indiretamente e sem qualquer planejamento, o covarde Marcelo chegou à coroação de um crime perfeito – que vingou a ele e ao pequeno vilarejo das ações feitas pelas duas gangues ao longo de mais de uma década.



Roberto Minadeo é escritor.

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