• Armazém na Estrada

As uvas

um conto por Débora Lima

(publicado no livro 'Só pode ser Cinismo', para adquirir visite:

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Madalena estava sentada à beira de seu colchão fino (o qual dobrava para servir ele mesmo de travesseiro, e, quando deitada, deixava seus pés de fora, como crianças nuas dormindo ao relento, além de já estarem com calos negros nos calcanhares que encostavam no chão), quando resolveu levantar e, como toda menina, totalmente alheia à dor de seus pares, à sua própria dor, na incoerência que lhe era peculiar, colocou, com as mãozinhas, os cabelos atrás das orelhas e, aproveitando o sono induzido de sua mãe, assim como a visita corriqueira de seu pai a um bar qualquer, resolveu buscar um aconchego na casa de sua tia querida.

As cinzas da queimada da cana-de-açúcar passavam intrusas pelas telhas afastadas, caiam ondulantes sobre sua cabeça e se confundiam com o negro indubitável de seus cabelos. Não lhe abandonavam o pensamento, alguns fatos referentes ao seu nascimento, que sua mãe lhe contara em um raro momento de sobriedade, riso e calma da diuturna fúria. E, na sua pouca astúcia de menina de onze anos, deduziu: “é irônico.”

Uma ironia que se confunde com graça, como um placebo talvez, como se tanta beleza pudesse minorar a dor de existir e viver, a cada dia, um turbilhão de emoções confusas desencadeadas por acontecimentos tristes, tristes demais para ser quadro geral de toda uma infância, toda a parte mais longa da vida, a quase eterna infância(eterna nas lembranças daqueles que vivem sôfregos dias de trabalho em que mal o ser acorda e já se passou toda a jornada do dia) aquele tempo que se não for doce, faz amargar a vida toda...

Deveria ser um paradoxo: ser tão bela se tão pobre: não aquela pobreza dos pobres de espírito, que nos faz humildes reconhecedores da dependência da providência divina e que leva à alteridade. Não a pobreza do sertanejo que cedo levanta e come tão dignamente o pão de duros trabalhos e dorme o ilustre sono dos justos coroado por um cansaço incomensurável, causado por um sol generoso e causticante. Não, não era uma pobreza da qual pudesse se orgulhar de qualquer forma, pois era a pobreza de ser a mais pobre de uma família de pobres miseráveis, sem dó nem afeição. Sem a mínima compreensão do que seja empatia, mas revestidos de uma azeda compaixão impulsionada pelo dever de prestar satisfação à sociedade, uma sociedade que sequer os vê.

Contudo, elas não compreendia, não via, não sentia. Em sua ingenuidade de menina, todos (exceto os bêbados e as viciadas em benzodiazepínicos, pela eminente potencialidade de causar dor, e mais dor, que eles tinham), eram bons.

Ela era boa, não obstante comer, diariamente, o amargo pão da falsa misericórdia do parente pobre que estende a mão para ter o direito de estender o dedo do desprezo, desprezo carregado de ódio inconfesso pelo irmão alcoólatra que não se mantém num emprego, que vende até a última roupa de baixo para pagar a conta do bar, quando o bar já não aceita nenhuma dívida. E que, na sua indolência moral incorrigível de bêbado, ainda se sente no direito de ter mulher e filha, como abcessos saindo de seu crânio, como um sexto dedo podre em cada pé.

Em tanta pobreza se revolvia sua consciência, como um porquinho se revolve na lama até sujar o último pelo. Embora não soubesse articular tais pensamentos, alimentava a ideia de que seria mágico ser pobre numa família igualmente pobre, ou, quem sabe, rica em amor e piedade. Como seria delicioso não ouvir o nome de seu pai em cada reunião familiar: sua bebedeira era o tema central de tudo, e seus olhos, nesses momentos solenes não suportavam fitar nada além do chão.

Naquele momento, a felicidade seria não ver a assembleia dos tolos se reunir para deliberar sobre o futuro incerto de seu pai viciado e sua mãe drogada.

Já lacerada por pensamentos tão bobos, se revestiu de esperança e partiu à casa de sua tia, aquela que lhe dizia amar, embora um amor de medo, aquele amor que ama sem querer cuidar, mas não se desgasta ao doar sorrisos largos. Um amor reticente, superficial, um amor-fraude, que não suporta um quilo da cruz de do ser amado.

Mas de que serve a sinceridade do amor? Se, quando se tem onze anos, o julgamento é falho, a percepção é pouca e um sorriso, acompanhado de um doce, faz a alegria de qualquer criança.

E as lisonjas de uma tia cujo único fetiche eram as feições delicadas e o negro dos cabelos da sobrinha, eram sempre bem-vindas.

Como de hábito, com as duas mãozinhas, colocou os cabelos atrás das orelhas e abriu o ferrolho da grade da casa de muro baixo de sua tia querida; ficava no bairro vizinho e tinha uma grade vermelha cheia de abacaxis de ferro, como era bela em comparação à sua própria casa. Havia sofá, centro, televisão e cadeiras à mesa, quase um castelo.

Sua tia estava fazendo doces, embolava surpresas-de-uva, cheirava a acúcar e sorria largo.

— Bença-tia

— Deustabençoe

— Cadê teu pai, foi trabalhar hoje?

— Foi não senhora, vomitou, fez xixi no chão, brigou com mainha, deu nela de chute e disse que não ia trabalhar pra sustentar velha nenhuma não.

— E tua mãe, cadê ela, fez o almoço?

— Fez não senhora, chorou de raiva, limpou o vômito e foi dormir.

— Sei não, viu, menina, a gente dá a feira e ainda tem que cozinhar pra tua mãe poder dormir. Fazer café, almoço e janta pra teu pai continuar com essas arruaças, já é demais!

Naquele momento, em silêncio, avaliava em seu coração: “-devo dizer alguma coisa em defesa de minha mãe.” Mas não disse, não teve força pra reagir àquele turbilhão de impropérios. E sua tia, que jamais a agredira, ou bebera, ou a deixara com fome para dormir por dias a fio, devia ter razão. Como se a razão se revelasse pela aparência... E, no mais, sempre lhe faltavam os argumentos quando lhes eram necessários.

Logo, sua tia voltava a sorrir com aqueles dentes gigantes enquanto trabalhava. E, mais à vontade, Madalena viu as uvas suculentas, grandes e tantas, mas tantas, que um desejo quase sensual lhe veio à boca, que salivava de vontade.

Se aproximou de sua tia e pensou em beijar-lhe a face gorda. Como adorava aquela tia, como lhe queria bem. Como queria aquelas uvas, ao menos uma e já pressentia o explodir de doçura se derramando em sua boca, em meio a tanta dor, aquelas uvas seriam seu lenitivo, lhe ajudando a suportar o mal de cada dia.

Estendeu a mão, quase já sentindo na boca molhada o tão desejado gosto, quando, “plaft”, sobre seu braço direito, em meio à dor física inesperada, vislumbrou dedos enormes de uma mão gorda que segurava com rancor e força seu bracinho de menina, em meio à confusão mental que sentiu, uma voz alta, estridente e cheia de repulsa:

— Não, menina! Estão contadas, são da encomenda, já não basta dar a feira, você ainda vem aqui comer minhas uvas?

— Silêncio...

Jamais uma uva não provada fora tão amarga, jamais sentira tanta vergonha. Não reagiu, nada disse, apenas abaixou a cabeça, engoliu com a garganta apertada, naquele instante, apenas o choro, correu para rua, onde derramou sua alma em torrentes de lágrimas, num choro convulso que lhe sacudia todo corpinho. Sua tia sequer apareceu à porta.

Madalena voltou para casa, as cinzas da queimada da cana-de-açúcar passavam diante de seus olhos flamejantes, em ondas, caindo ao chão.

Um ato impensado, de um coração confiante e desavisado, lhe trouxe sentimentos que se enraizaram ao longo dos anos. Desabrochando em outros que não se podem mencionar diante de uma criança. Sua alma era de uvas, e aquele episódio foi o lagar onde sua confiança de menina foi pisada.

Débora Lima é poeta e escritora. Autora dos livros:

O prato triste da discórdia (e outros

contos quase sempre tristes): Adquira!

Enquanto o instante existe (poesia): Adquira!

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