• Armazém na Estrada

Armageddon

um conto por Roberto Minadeo



Emma voltava do trabalho. Como sempre, vinha de bike. Era a época mais dura do inverno. Escurecia e esfriava cedo. Não gostava de pedalar, mas essa se tornara a única opção: comprar um automóvel nos duros anos 1950, em pleno pós-Segunda Guerra, seria proibitivo para sua família. Com a distância até sua casa, a bike se tornara o seu meio de transporte, assim como o de todas as suas colegas. Era uma jovem alegre e despreocupada. Vivia com os pais e trabalhava em uma fábrica, como tantas outras moças na região.

Chegou à rodovia que precisava atravessar no final do percurso. Que susto! Tudo ao redor tremia. A fumaça de óleo diesel, sufocante, fez Emma demorar a tomar pé da situação: a rodovia estava ocupada por uma fervilhante procissão de carros militares. Não era sequer possível ver o final do cortejo dos veículos da morte. O que significaria tudo isso num dia de semana naquele lugar inóspito e à noite?

A amaldiçoada Segunda Guerra se fora. Não deixara saudades. Emma estranhou que em pouco tempo já haviam feito tantos novos equipamentos bélicos: jipes, carretas com canhões, caminhões carregados de soldados, motocicletas de escolta, tanques sobre rodas... Ela nunca vira tal quantidade e variedade. Tudo tinindo de novo...

Reparou que ao seu lado muita gente também esperava: outras bikes, além de pequenas carruagens puxadas a cavalo e até alguns dos raros automóveis da região – pertencentes aos dirigentes da fábrica, aqueles engomadinhos que sabiam ler, escrever e fazer contas. Também viu na outra margem da rodovia alguns conhecidos, que haviam se dirigido para ali com o intuito de saber os motivos do atraso dos que voltavam do trabalho, e que levaram a notícia aos lares do lado de lá.

Estava quase se distraindo ante a placidez do espetáculo quando se assustou: diversos caminhões conectados tracionavam uma carreta com dezenas de eixos e centenas de rodas. Sobre ela, o verdadeiro Armageddon – o indesejado final de todas as guerras! Cínicos o chamavam de “pai da paz”: um bestial foguete lançador de armas nucleares. Gigantesco, tinha mais de vinte metros de comprimento!

Emma nada entendeu, afinal, estava cansada após um duro dia de trabalho; queria apenas um bom banho antes do magro jantar e de curtir o sono dos justos. Que diabos fazia esse exército à noite naquele canto esquecido do mundo? Essas coisas eram vistas em desfiles militares, em datas cívicas, nas praças e avenidas da capital, para ostentar o poderio bélico do país e intimidar eventuais inimigos...

Demorou, mas a moça se recordou: a cerca de vinte quilômetros dali, havia sido instalada uma base para o lançamento de mísseis. Vieram-lhe à memória notícias sobre caminhões-betoneiras empregados na construção dos silos de concreto que abrigavam os pérfidos foguetes. A base precisava ser inexpugnável para resistir a quaisquer ataques e poder entrar em operação, vomitando mísseis nucleares numa Terceira Guerra Mundial, de modo a cumprir seu papel de ajudar a finalizar a vida humana sobre a Terra. Cada foguete levava três bombas e o alcance daqueles brinquedos seria de uns dez mil quilômetros.

Então a nova base estava recebendo os primeiros ilustres moradores. O imenso conjunto de veículos que desfilava sob seu nariz contava com nada menos que seis foguetes! O cortejo roubou mais de cinquenta minutos do descanso da atormentada Emma. Pior: enquanto esperava, ela foi ficando enregelada. A nova guerra dos diabos nem se iniciara e já fazia os primeiros estragos.

Durante a espera, lembrou-se tristemente dos males da Segunda Guerra. Sua família perdera os cavalos – indispensáveis na pequena fazenda, pois não havia tratores. Também foram confiscados os utensílios de cobre. Para piorar a dureza da situação, durante o conflito nem pensar em gasolina, eletricidade e roupas. A pobre propriedade rural regrediu trinta anos, devastada. As escolas da região foram fechadas. Ela começara a trabalhar na fábrica, continuando a ajudar na lida da terra – como até hoje fazia.

A dura conta daquela maldita guerra fora paga com o sangue dos mais pobres, como sempre. Seu país vencera? Que piada de mau gosto! Isso em nada beneficiara os eternos pagantes, cuja situação continuava se deteriorando: seus pais tocando a fazenda sem cavalos, e ela na fábrica, sem roupas nem sapatos novos nos últimos dez anos. Vitória? Que embuste infame! E a escola, prometida para retornar junto com os tempos de paz? Nada disso: apesar das mil promessas de políticos trapaceiros, ela continuava semianalfabeta. Vitória? Mentira ardilosa e vil para enganar eleitores incautos e continuar a tosquiá-los!

O desfile terminou. Os últimos batedores se foram. Os automóveis da chefia da fábrica rapidamente cruzaram a rodovia, seguidos pelas carruagens e pelas bikes. Seus pais já sabiam o que a atrasara. Seguiram-se o banho e o jantar. Ela foi dormir.

Apesar de mal entrada na casa dos vinte anos, não conseguiu conciliar o sono. Pela primeira vez na vida o turbilhão que afetava sua mente não a permitiu descansar. Começou a tremer de frio, como se tivesse febre. Justo ela, sempre a mais forte para enfrentar todas as estações e para trabalhar no que fosse necessário. Levantou-se, bebeu água. Voltou à cama para tentar dormir. Inútil.

A raiva pela devastação da Segunda Guerra e pelos anos roubados à família veio à tona e foi amplificada quando ela pensou na imensidão de recursos investidos na nova coleção de brinquedos que fora obrigada a contemplar. Enquanto isso, as escolas e tantas outras coisas subtraídas de sua geração continuavam ausentes. Tinha um emprego que não escolhera e que mal contribuía para o decadente orçamento familiar. Via a saúde de seus pais decair, enquanto eles, ano após ano, cuidavam da terra sem recursos de qualquer natureza. Tantos de sua região eram obrigados a emigrar!

Recordou que as tropas ao cruzarem seu país gostavam de frequentar as áreas rurais para se abastecer, devastando o que encontravam pelo caminho.

Um dia, uma criança da vizinhança ousou pedir um pão, abundante entre os soldados, mas o pedido fora alvo da mais abjeta brincadeira de todo um batalhão. O último elo da cadeia alimentar sempre pagava a conta das irresponsabilidades bélicas mundiais.

Com um começo de resfriado, Emma tentou vencer a insônia por cerca de três horas, no que já se constituía como a pior noite de sua vida. Os bons tempos de despreocupação eram coisa de um passado distante e que jamais retornaria. Deitada sob três cobertas, às vezes com os olhos abertos e vagueando distraidamente por sua janela, de repente a moça viu uma fantástica chuva de estrelas. Magnífico espetáculo da natureza. Gratuito, ao vivo e a cores.

O peso da guerra sempre foi real. Sua dureza também. Pobres sempre pagaram e continuarão pagando essa conta. Várias nações detinham armas nucleares, o que certamente iria piorar a próxima – e última guerra...

As estrelas trouxeram esperança: talvez tais mísseis jamais fossem usados... Talvez servissem apenas para mostrar os riscos de um novo confronto mundial e até mesmo para afastá-lo. Emma parou de tremer de frio. Sorriu interiormente. Esqueceu-se do Armageddon. Fechou os olhos de vez. Dormiu em paz.


Roberto Minadeo é escritor.

Autor dos livros “Na Casa da Avó” e “Duas Irmãs”.

O conto "Armageddon" integra o livro “Sonhos fulgurantes”

(para adquirir: https://www.amazon.com.br/dp/B088P8D8RK)


248 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Ir e vir