• Armazém na Estrada

Um homem atrás das grades

por Achel Tinoco

O que mais me impressionou não foi vê-lo atrás das grades,

o olhar desesperado, a tez pálida, as mãos suplicantes.

O que mais me impressionou foi a solidão que o cercava.

Não era um homem, não era um bicho, não era um rio.

Era uma ilha.

Não tinha sobrenome aquela ilha,

não tinha futuro esse homem.

Apenas uma ilha dentro do homem;

apenas um homem perdido na ilha.

Uma ilha desabitada de si mesma,

afastada da gente, vazia, cercada por nada.

Para vê-la, precisava-se ficar do lado de fora.

Foi aí que eu o vi:

um homem atrás das grades.

Um rascunho inocente do que já fora.

Um colchonete pelo chão,

dois livros sobre uma mesinha,

e as grades de ferro...

Encontrei-o outras vezes,

noutros tempos,

noutras conjunturas:

o seu chapéu Panamá,

o seu charuto cubano,

o seu café expresso.

Agora ele só queria ver o mar.

O mar despencou de seus olhos quando me viu chegar:

“Pelo amor de Deus, me tira daqui!”

Estava preso havia sete meses.

Tentara vender uma ilha que não lhe pertencia.

Agora essa ilha o cercava de solidão.

Achel Tinoco é poeta e escritor.



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