• Armazém na Estrada

Re-visão (O fim da Mecanografia)

um poema por Samuel da Costa

Foto: Renan Filipi da Costa

Não vou re-visar os meus textos.

Vou desafiar a gramática!

Ignorar as normas vigentes...

Exilar-me no meio do nada...

Viver no vazio absoluto!

Render-me ao consumismo instantâneo...

Cultuar heróis fabricados...

Heia...

Quero dar um viva a comunicação de massas...

E praticar a sub-literatura!

Espalhar cópias fotostáticas por aí...

Insignificâncias sub-terrâneas...

Que ninguém vai entender!

Rebeldias literárias que ninguém lerá.

Vou invadir o mundo pagão!

Devorar suas reservas naturais...

Nutrir todo o meu ódio cristão.

Banhar-me em ouro negro!

Dar um viva à pirataria pós-moderna!

Heia tempos pós-modernos liquefeitos

Viva a mecanografia dos tempos modernos!!!

Heia armas de destruição de massa!

Sobras das loucuras do século passado...

Sobras escondidas que ninguém encontrou!

Sombras da tecnocracia que mata!

Ipi! Ipi! Hurra!

Vou me esconder nas matas!

Armar-me...

Seqüestrar políticos, militares, estrangeiros, empresários...

Toda a corja capitalista e autoritária!

Quero prestar minhas homenagens...

Aos deuses antigos!

Mortos-vivos a caminhar pela selva!

A perambular no inferno verde!

Imensidão verde que ninguém entende.

Vou ficar na frente da T.V!

E ver o impensável.

Golpes de marketing...

Engendrados nos laboratórios dos comunicólogos!

Vampiros virtuais!

Bruxos da pós-modernidade...

Neo-alquimistas cibernéticos!

Que fazem a mentira virar verdade!

Que faz o branco virar negro

E o negro virar branco!

Eita! Eita!

Eita!

Não vou me formar...

E vender coisas que não existem!

Produtos virtuais!

Ferramentas pós-modernas liquefeitas!

Nascidas já ultra-passadas!

Vou espelhar vírus virtuais...

Agentes do caos...

Escondidos em juras de amor.

Eia! Eia!

Oh!

Vou-me micro-processar

Vou prostibular minha imagem!

Peregrinar pelo ciber-espaço...

E pôr à venda aquilo que não tenho!

Expor aquilo que não sou...

Eia... Eia.

Oh...

Eita vidas na pós-modernidade!

Movidas a doces que matam...

De festas embaladas por drogas sintéticas!

Massa dissoluta a frita neurônios.

Deuses bacantes na pós-modernidade!

Vou assistir processos burocráticos...

Que não dão em nada!

Processos digitalizados

Empoeirados! Normatizados!

Que vão dar no vazio!

Vou ver audiências públicas

Falatório dos demagogos...

Arenas de embates combinados

Circo de hoje... Televisionado...

Radiofonados...

Palcos do nada!

Eia! Eia!

Viva a toda telegrafia sem fio!

Cabos de fibra óptica postados...

Em alto mar,

Rios de informações...

A se perder nas inutilidades diárias...

Viva a Blogosfera.

As redes sociais digitais

Ambiente aonde reina coisas inúteis...

Bobagens digitalizadas a se amontoar no vazio.

Viva a comunicação via-satélite...

Viva o espaço cibernético!

Viva os diários on-line que ninguém lê!

Ipi! Ipi! Hurra!

Viva aos cartões de memória.

Megabytes de inutilidades!

Eita telefonia móvel...

Rede viva de coisas fúteis!

Inutilidades que ficam velhas rápido!

Viva o consumismo vazio!

De objetos da moda!

Coisas inúteis...

Que nada valem...

Eita rostos estampados nas revistas de moda.

Grifes! Marcas!

Modelos vivos fugazes...

Anorexos... Bulimicos...

Descartáveis inúteis!

Peças ocas da produção em massa...

Viva toda a produção em larga escala...

A consumir o planeta

A exaurir o globo

Eia... Eia... Oh

Viva a luta de classes

Massa dissoluta empobrecida

A protestar contra organismos

Internacionais!

Eita pirataria-terceiro mundista!

Eita trabalho escravo!

Ipi!

Ipi hurra!

Viva o Fordismo de hoje!

Viva o Toyotismo do amanhã!

Toda a onda globalizante...

A esmagar culturas locais!

Sub-verter valores!

A super-aquecer o globo!

Eia! Eia!

Oh!

Toda a uma sociedade interligada...

Massa sub-humana...

A caminhar por ai!

Pelo mundo globalizado...

Interligado e dividido

Eia! Eia!

Oh!

Viva a crise financeira mundial...

A derrubar governos...

Eita escândalos no parlamento...

Mesadas re-passadas

Mês a mês

Escondias nos slip...

Eia! Eia!

Oh!

Vivo as pandemias mundializadas!

E todo um alfabeto de novas doenças...

Produzidas nos abatedouros...

Da produção em massa...

Viva os socorros aos bancos...

Vou hastear a bandeira!

Up a July Roger!

Viva a pirataria cibernética...

Vou distribuir arquivos virtuais!

Vou distribuir o que não é meu...

O que não me pertence

Under a July Roger!

Quero baixar as artes digitalizadas...

Vou pilhar toda a arte que puder...

Eita! Uma garrafa de rum!

Under a July Roger

Eita. Eita.

Eita são mil olhos postados em mim!

Heia são mil olhos eletrônicos...

Invadindo e destruindo

As minhas liberdades individuais!

Eia! Eia!

Eia!

Viva a geração pós-modernista!

Caricaturas massificadas...

Que nada valem!

Viva o pós-modernismo...

Viva as promessas dos políticos

Que nada valem

Eia... Eia...

Oh!

Todas as doenças infectas contagiosas...

A traçar o continente negro!

A devorar os guetos metropolitanos...

Vidas pós-modernas. ..

Heia... Heia

Heia megalópoles...

Vivas os intercâmbios criminosos...

Cartéis narco-assassinos globalizados!

Crimes mundializados...

Viva os sigilos bancários!

Viva os paraísos fiscais...

Vivas as fraudes financeiras...

Relatórios falsificados

De orçamentos super-faturados!

Manipulados!

Eia DNA...

Eia ciência Florence!

Eia ciência que mata,

Eia ciência que cura.

Massa humana despossuída

Scum a cruzar fronteiras!

Ruínas vivas sem nome

E sem rosto...

Sem passado e sem futuro,

Farrapos dos novos tempos,

Vítimas das loucuras modernas!

Vítimas de ódios antigos!

Das verdades que matam...

Dos foguetes teleguiados

E tanques informatizados...

A cruzar fronteiras

Viva a cultura artificial imposta

Viva a Meca-nografia

De hoje... do ontem

E do amanhã...

Viva um futuro incerto...

Não planilhado...

Eia conferências de paz

Que não dão em nada...

Cartas marcadas

Por interesses belicistas

E toda a fúria de um auto-carro...

Que passa gritando!

Toda a fúria de um Formula 1...

Que em pedaços, esfola crânios!

Toda a fúria de um exército invasor...

A bombardear cidades!

A destruir culturas,

Saquear museus!

Eita AK47

Eita Uzi...

Eita Fn Browning!

Eia...eia... oh!

Viva as Magnum!

Vivas as Ponto 30...

Salve as Ponto 40...

Salve as Ponto 50!

A perfurar blindados...

A derrubar aero-naves!

Salve todas as guerrilhas urbanas.

Embrenhadas na selva de pedras.

Tá... Tá...

Tá...

Pá... Pá... Pá... Pá...

Salve...Salve...Salve!

Viva todas as guerrilhas urbanas.

Bandos armados...

Siglas assassinas anunciadas e denunciadas

Nos sensacionalistas noticiários da T.V.

A estampar as páginas dos jornais

Das revistas...

Eita tribunais de exceção!

Das fações criminosas

Micro-ondas nos altos dos morros...

Viva...viva...viva!

A superficial vida moderna!

Viva o consumo imediato...

E todo o capitalismo voraz;

Eita século vinte um

E suas torres que caem

Todos os ódios étnicos, políticos

E religiosos

De embargos comerciais

A atingir inocentes

De acordos internacionais não cumpridos...

Eita eminência de um conflito nuclear

Nações equilibradas pelo terror

Eita mentiras on-lines...

Espalhada virtualmente!

De antístite manchados

Por crimes sexuais

E toda a Meca-nografia de hoje

Do ontem...

E do amanhã!


Samuel da Costa é poeta em Itajaí, Santa Catarina.

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