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Os horizontes para o declínio da extrema direita no Brasil: duas hipóteses e uma lição

Atualizado: Mar 12

por Moisés Morais


Uma reflexão que está na ordem do dia é se estamos ingressando em um momento de esgotamento de um ciclo político da extrema direita no mundo. A derrota de Donald Trump e o resultado das eleições na Bolívia e no Equador podem corresponder a indícios desse processo. E no Brasil, algo similar pode estar se avizinhando?

Não há uma resposta definitiva para essa questão, pois se ainda há debilidades para interpretar o presente, imagina só se enveredarmos para decifrar o futuro. O que será traçado nas próximas linhas reflete esses limites e não ultrapassará o mero entendimento do que pode se projetar como tendência, valendo-se de precedentes históricos no Brasil, com relação a experiências politicas autoritários que incorporaram elementos de extrema direita, como o primeiro governo de Getúlio Vargas e a ditadura militar.

o governo Jair Bolsonaro e o bloco conservador que o apoia irão ruir, mas não com a brevidade desejada de quem defende princípios minimamente democráticos

Há distinções se colocamos em paralelo a ditadura varguista e a ditatura Militar. A história não é só repetição. No entanto, permanências podem ser constatadas quando nos dispomos a comparar à dinâmica politica que conduziu a permanência e o declínio desses exemplos de autoritarismo que se evidenciaram ao longo do regime republicano no Brasil.

Vejamos: se não foram eternas, ambas não se encerraram em um estalar de dedos. Vargas governou por 15 anos e os militares por 21; uma ampla máquina de propaganda foi mobilizada em favor do governo, lançando mão dos recursos midiáticos que historicamente estavam disponíveis, valendo-se também da censura a qualquer conteúdo que figurasse como opositor; o emprego da violência estatal contra seus opositores políticos foi massivo e sistemático, promovendo graves violações aos direitos humanos; o fim desses regimes autoritários se efetivou quando se articulou uma ampla coalizão de forças politicas, a qual reunia dos comunistas até os liberais em sua composição.

Esses aspectos indicam o modus operandi de como se estruturou a manutenção e o declínio de experiências politicas autoritárias no Brasil durante o século passado. Evocá-las pode nos servir como parâmetro para cortar a cena e darmos um salto para o tempo presente, praticando o arriscado exercício de projetar o que pode se constituir como tendência em um futuro próximo, sem que isso signifique ignorar que circunstâncias inéditas possam se apresentar ao longo do percurso.

Após todo esse preâmbulo, cabe expressar duas hipóteses sobre o que pode se vislumbrar em termos de um possível declínio da extrema direita no Brasil. A primeira hipótese é que o governo Jair Bolsonaro e o bloco conservador que o apoia irão ruir, mas não com a brevidade desejada de quem defende princípios minimamente democráticos. Lembremos que mesmo no caso de um eventual impeachment do capitão assumirá o vice-presidente que possui vinculações com setores conservadores e autoritários, tal como o titular da faixa presidencial. Paciência e canja de galinha não farão mal a ninguém.

A segunda hipótese é a seguinte: remover o lixo autoritário que está no palácio do planalto implicará em uma ampla aliança que terá melhores condições para ser formada em uma conjuntura com maior fragmentação dos grupos políticos que apoiam o atual governo federal. Assim, pode se tornar factível uma coalização entre grupos da oposição com setores dissidentes da situação, materializando uma composição que vai da esquerda socialista até a direita liberal. Trata-se de uma coalizão política temporária que não tem possibilidade de vingar em uma perspectiva eleitoral, dada as contradições ideológicas que se evidenciam em seu interior.

Enfim, são hipóteses as quais podem no futuro se confirmar ou não. Mas, independente da forma que poderá assumir o desfecho para o atual ciclo de proeminência da extrema direita no país, há uma lição que a história demonstra e não podemos ignorar: a remoção de grupos autoritários do poder não significa um avanço para a democracia a ponto de impedir uma nova ameaça de fechamento do regime. O autoritarismo é um elemento que se faz presente na prática política das elites no Brasil e constantemente pode dar o tom da política nacional.


Moisés Morais é Historiador e Professor. Mestre em História pela UNEB.


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