• Armazém na Estrada

O destino do mundo na Assembleia dos Zés

Atualizado: Mar 12

um conto por Lodônio de Poiri

Um gole, uma cuspida. Algumas frases perdidas no barulho da festa na praça. O bar não é o mesmo quando aglomeram dançantes ao redor de um carro com sonorização.

Antigamente um bar era ambiente respeitável. Agora é um tumulto da esculhambação na praça; tumulto da gritaria na igreja; tumulto de motos roncando à toa... Antigamente um bar era respeitável: os frequentadores sabiam como se portar. E não acontecia o despautério de meninas circulando à vontade e exibindo a polpa da bunda. Antigamente a norma era impecável: as prostitutas eram exemplares na conduta dentro do estabelecimento. Hoje o mundo virou uma balbúrdia.

Zé Onofre calou. Cuspiu duas vezes. Uma era para o santo.

Antigamente... Cada coisa! As pessoas devem sair do museu. As netas estão aí na putaria, mas só enxerga o erro das netas dos outros. A única alternativa para as mulheres se libertarem dos homens era virando puta... Nem sei se é isso... Eu admito: escutei de uma professora universitária. Acho que ela dizendo seria melhor. Saberia traduzir alguns detalhes.

Zé Alfredo apertou o copo, bebeu avidamente, bateu o copo no balcão e mandou descer mais uma.

O negócio todo foi consequência do rumo marxista: queimaram os livros do Marx e do Engels. Eis aí o problema! A essencial pauta política foi desarvorada pelos temas comportamentais... Eu alertei do caráter imprescindível da formação da militância para elegermos vereadores comprometidos com o socialismo científico. Ausente o materialismo histórico, estaremos sempre à deriva da ganância dos capitalistas que lucram com a luxúria.

Zé Macedo cruzou as pernas enquanto balançava o copo no intuito das pedras de gelo flutuarem no uísque. Conforme o hábito, um suave gole indicava que a dose demoraria a ser consumida.

Um bar é ambiente de saudosistas... Sempre foi. É impossível algum susto. Até mesmo os valores morais que elevam a dignidade são reivindicados para o monopólio socialista... O conservadorismo exemplar inibiria todas essas mazelas. Porém, nosso partido foi tratado como aglomeração de múmias! A verdade é que nossas propostas para dinamização econômica incomodam os privilégios tanto das elites que se locupletam do Estado quanto dos socialistas que parasitam os cargos públicos. Agora, suportem as indecências em cada metro quadrado desta cidade. A vitória do nosso partido seria a vitória do padrão exemplar da vida cotidiana. Independente dos estertores e dos agouros.

Zé Carneiro percorreu os cabelos com as mãos. Após ajustar o terno, acenou para o balcão indicando para servirem mais uma dose de vodca.

Diante dos cenários da vida, o que se pode dizer sobre o erotismo exacerbado? Dizer o que não foi dito é impossível; já disseram além do que se poderia pensar... Os dizeres são mais exacerbados do que o erotismo: eis a verdade eloquente do século vinte e um. E eu ia dizer outra coisa, mas a embriaguez é traiçoeira e vive na tocaia. Sempre atinge os meus lábios e tudo se embalança como num balanço de valsa aleatória.

Zé Lambada soluça, cambaleia, escorrega e... sustenta o corpo com o cotovelo na pilha de caixas de cerveja.

Nenhuma das mentes senis poderá perceber a plasticidade lasciva da época. Mil anos atrás, como as sociedades do dito mundo conhecido manifestavam vossas lascívias? Não vou falar do benéfico impacto econômico da indústria do prazer porque sempre reduzirão ou aos lucros infames da luxúria ou aos efeitos colaterais do consumismo. O fato é simples: nós somos frutos de uma era opressora. A humanidade, agora, revigora o tesão plural e abrangente que fora perdido nos séculos.

Zé Antônio derrama cerveja no copo. Gole voluntarioso concluído com a pancada na mesa. Movimenta a mão com o dedo indicador apontando ao teto: entre sorrisos, todos sabem da oferenda de uma rodada geral aos assíduos frequentadores do bar. No balcão, Chico de Alcina resmunga.

A cantilena é a mesma todo sábado. Todos sabem da putaria, mas nenhum permanece em casa, abraçado às esposas, diante da televisão. Vão ver filme ou seriado com a família, seus porras de merda. Um saco de tanto falatório. Se vocês fizessem o favor de não aparecer aqui, eu sequer abriria a porra desse bar no sábado à noite. Barulho do caralho! E ainda ficam aí tentando consertar o mundo em discursos de borda de copo. Quem quiser beber, venha cá no balcão. Sou viado não, para servir esse bando de marmanjo velho. E o garçom vai atender as mesas lá fora. Estão pensando que ainda tem puta no bar, é? Nem dinheiro vocês tem de verdade para pagar prostitutas, se ainda existissem.

Então, rebolando na calça de linho enquanto a mão direita agita os cabelos compridos e a mão esquerda mantém o paletó sobre o ombro, adentra no bar o advogado Zé de Antônia.

Chiquinho, meu amor, separa uma caixa daquela cerveja artesanal chiquérrima porque saíram os alvarás daquelas ações bombásticas e vou comemorar com os bofes e as loucas. Hoje, o sábado só termina na segunda!

Enquanto o cliente caminha para a varanda do bar, o Chico de Alcina balbucia xingamentos para os frequentadores assíduos, que oscilam semblantes de ironia, arrelia e desdém.

Mainha disse que esse ‘divogado’ é o cara, não é pai? Eu vou estudar muito para um dia ser igual a ele.

Prometeu o Zezinho Filho, com semblante admirado, sob os olhares estupefatos do pai e demais frequentadores assíduos.


Lodônio de Poiri é poeta e escritor. Um epicurista anarquista e vice-versa

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