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Monumentos à barbárie

Atualizado: Mar 12

por Moisés Morais


Fonte: pelourinhodiaenoite.salvador.ba.gov.br

Nas últimas semanas, uma temática, muito comum no debate acadêmico para a Museologia e a História, ganhou espaço nos noticiários e nas conversas do cotidiano, em função dos recentes episódios de demolições de estátuas no espaço público. Essas demolições ganharam fôlego, a partir das manifestações antirracistas deflagradas, após o assassinato de George Floyd por um policial, na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos.

Faz-se necessária essa contextualização para desconstruir interpretações equivocadas ou oportunistas que lançam a pecha de “vândalos” para quem, nos protestos que ganharam as ruas pelo mundo, tem protagonizado a derrubada de monumentos históricos. Mas, não se trata de qualquer monumento histórico. Muito menos de uma iconoclastia aleatória derivada de uma fúria irracional. Pelo contrário, há um alvo politico muito bem definido: são símbolos que presentificam a escravidão e o racismo, apesar da promulgação de leis que oficialmente aboliram o escravismo e a segregação racial.

Desse modo, a derrubada de monumentos que homenageiam escravocratas, além de ser um ato politico e simbólico, também exprime como a memória é uma questão sempre em disputa. Ou seja, indica que o passado não está definitivamente morto, mas que serve à manutenção de relações de dominação no presente. Assim, o controle da interpretação sobre o passado é funcional para o exercício do domínio politico e econômico na atualidade.

Isso significa dizer, também, que os meios pelos quais o passado é preservado para a posteridade, através da história ou da memória, não resultam de uma operação neutra. Há uma seleção sobre o que deve ou não ser lembrado por uma sociedade, para se tornar um recurso ideológico a ser mobilizado para justificar estruturas de dominação no presente.

Essa dinâmica é possível de ser reconhecida em diferentes lugares e épocas. No Brasil não se vê algo diferente. Ainda sobrevive, por exemplo, denominações de ruas, avenidas e, até mesmo, escolas públicas, associadas a nomes de colonizadores, protagonistas da exploração criminosa sobre etnias indígenas e africanas escravizadas no Brasil, ou mesmo de violadores de direitos humanos em um passado recente. A alteração de nomes de logradouros com esse perfil tem sido reivindicada pela sociedade civil como ato de reparação simbólica.

Diante disso, faz bem para a sociedade a problematização da memória e das formas de consciência que nela se tem sobre o passado. O movimento espontâneo de derrubada de estátuas, que emergiu nas passeatas antirracistas mundo afora, tem contribuído para que não se continue a cultuar como heróis os algozes de parcelas da população ancestral.

No entanto, é importante salientar que a demolição desses monumentos à barbárie não é suficiente para extinguir a mentalidade racista. Apenas o despejo desses símbolos do passado escravocrata não anulará o racismo, pois ele é funcional no presente para a manutenção da exploração econômica pela classe dominante e do seu exercício de hegemonia em espaços de poder. Logo, a superação do racismo depende muito da transformação das estruturas sociais e econômicas que são solidárias a esse estado de coisas e que não cessam de erguer monumentos à barbárie.


Moisés Morais é Historiador e Professor. Mestre em História pela UNEB.


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