• Armazém na Estrada

Monstros não choram; anjos e demônios, também.

Atualizado: Mar 12

Conto escrito em 2010 por Lodônio de Poiri.


Quando cheguei às imediações da vila, avistei alguém. Então, fui reduzindo a velocidade do veículo até alcançar o corpo humano de pé. Parei o carro no meio da estrada: naqueles tempos não havia risco algum de acidente... O meu carro era algo inusitado. Os poucos ainda vivos não acreditavam que outra tentativa de socorro surgisse. Principalmente, depois de decretada a quarentena.

Parei o carro e observei o corpo humano de pé no contorno da curva que antecipa a vila. Dali é possível admirar os tetos cinza envoltos nas árvores. Ainda era a mesma imagem que inspirou a bela pintura do único artista que porventura atravessou aquelas matas. A tela se tornou mil vezes mais valiosa do que todas aquelas casas e suas possíveis riquezas.

O rapaz movia somente as mãos, acariciando os próprios braços. Dos seus olhos, brotavam lágrimas. Mas ele não chorava. Isso: lágrimas surgiam dos olhos fixos e obcecados por admirar a vila do alto; mas não havia choro. Sem desespero, nem lamentação no olhar, tampouco nos lábios, o rapaz deixava as lágrimas escorrerem pelo rosto e inundarem a barba. Entretanto, o choro não se afigurava.

– Bom dia, moço. O senhor sabe dizer como a comunidade vem reagindo a essa... contaminação? – escuto o vento como resposta.

Decido prosseguir rumo à vila, tanto por respeito ao momento do rapaz quanto por cautela: tempos de epidemia são tempos de turbulência social.

A rua de entrada é bonita, com seu calçamento antigo e suas casas pequenas, de arquitetura simples, chamando-me a atenção dois detalhes: um é a largura – a rua nasce um palmo diante da porta das casas, e mesmo assim é uma rua delgada; o outro é a extensão – salvo exagero de minha parte, devido o encanto pela primeira impressão, a rua deve medir pouco mais de hum quilômetro, comprimento respeitável quando se refere a uma vila. Enquanto prossigo na rua bonita, percebo o porquê da sua extensão: a cada cem metros há uma travessa de cada lado, com umas seis casas e depois um caminho para as fazendas. A vila em si é essa rua bonita, delgada e extensa. E também, ao menos hoje, vazia! Algumas casas até revelam seu interior através de portas e janelas escancaradas. Mas não há sinal dos habitantes.

Cores vibrantes reluzem no final da rua. Quando alcanço a última esquina, percebo um jardim com belas flores. Um inusitado oásis de sutileza e elegância. Quis admirar, porém, barulhos indicando a presença humana furtam o prazer de contemplar. Ao lado esquerdo, a alguns metros do jardim, em algo parecido com um anfiteatro, vejo dezenas de pessoas participando, tudo indica, de uma assembleia. Dirijo-me a eles. Devem ser os sobreviventes do infortúnio.

– Pode ir falando quem é você e o que veio fazer aqui. Acredito que já deixamos claro, para todos, que não aceitamos ser tratados como animais de jardim zoológico. Não somos atração para curiosidade de ninguém. – o meu anfitrião é um careca que se encontra sobre o palco. Talvez um novo líder, porque acredito que muitos líderes já devem ter falecido desde o início do surto.

Abro a porta do carro devagar e caminho três passos em silêncio, com as mãos levantadas.

– Desculpem-me se incomodo. Não é meu propósito. Estou aqui para ajudar. Fui enviado pelo governo nacional. – o coro de resmungos é tão vibrante quanto o jardim.

– Eu nunca vi um médico que é doente da cabeça. – uma gargalhada ressoa depois da zombaria. Mas eu, ao contrário da raiva, esboço um sorriso no canto dos lábios. A voz que zomba é suave, e, quando giro para saber quem zomba, descubro que o inusitado oásis de sutileza e elegância tem rival na vila.

– O senhor tem duas opções: explicar de modo convincente o que veio fazer aqui; ou se juntar aos outros médicos. Rápido! Que temos de continuar nossos assuntos. – o careca esclarece quem era o líder. Caminho em passos rápidos para perto dele. Em gestos desconcertados, manifesto minha dúvida sobre falar exclusivamente para ele ou discursar à assembleia. Ele acena para o público.

– Bom, vejo que vocês estão ocupados, então vou ser breve. Antes, quero informar uma coisa: não sou médico. Sou um bioquímico e me ofereci para vir coletar material para pesquisas. Sabe, sangue, urina, fezes, fios de cabelo... porque as outras tentativas...

Sou interrompido por novo coro de resmungos. Dessa feita em tom mais agressivo. O careca observa calado. Entretanto, o olhar dele faz qualquer um temer a morte. O suor vai molhando a roupa. Uma gargalhada abranda o coro de resmungos:

– Pessoal, vocês não estão vendo que esse aí é dodói da cabeça não? – a voz suave provoca silêncio na assembleia. – Quem se atreveria a vir aqui depois da porcaria da quarentena? O gatinho é doidinho...

Dezenas de sobreviventes sorrindo. Eu era o motivo do humor. E senti felicidade por isso. O escárnio, a ironia, o fervor zombeteiro circulavam naquelas veias talvez contaminadas pela mesma desgraça que matou familiares e conterrâneos queridos. Minha missão era exclusivamente conquistar o material suficiente para contribuir às pesquisas farmacêuticas. Produzir medicamentos e possivelmente vacinas. Não estava ali para salvar aqueles infortunados. O rasgo de alegria inusitado gerou vontade de chorar. Mas não era prudente manifestar emoções. Lembrei-me do rapaz que brotava lágrimas sem chorar. Eu chorava sem brotar lágrimas.

– Não podemos continuar com essa brincadeira. Temos um julgamento para terminar. – o careca pronunciou firme, conquistando a atenção de todos e o silêncio. Eu tentei ser calmo, porém é difícil evitar o desespero diante de ameaças inesperadas. Ainda mais, levando em consideração que todas as últimas equipes médicas, enviadas para socorro antes da quarentena, jamais retornaram. A suposição do governo foi simples: os membros terem sido acometidos pelo surto. Eu, agora, já suponho diferente.

– Por favor, não me matem. Eu não vim fazer mal a ninguém. Eu juro. Não precisa fazer julgamento nenhum...

– Cala a boca, seu covarde! – o grito do careca foi eficaz. – Esse aqui certamente é mais um idiota querendo nosso sangue. Quem se oferece para nos livrar dele? Precisamos terminar o julgamento!

Ainda bem que não era prudente manifestar emoções naquela ocasião. Afinal, eu não saberia escolher entre comemorar a percepção de que não faço parte do julgamento ou lamentar essa tal oferta para “se livrar de mim”. Então, ocorreu a melhor proposta da minha vida.

– Deixa que eu cuide dele. – a voz suave provoca insatisfações. – Poxa, o cemitério está sem vagas há muito tempo.

Enquanto ela sorri divertida; eu a contemplo com apetite sexual. Único refúgio possível naqueles instantes de temor.

– Juju, você continua sonhando em ir embora, não é? – indaga uma senhora.

– Tive uma ideia. – diz um homem baixinho, bem vestido, certamente respeitado pela comunidade, visto a atenção imediata que obteve. – Nós não sabemos o resultado do julgamento. Normal. E também não sabemos se o Pepe tem razão. Mas temos certeza de que a notícia do fim do surto fará o governo enviar grandes equipes para cá. No mínimo, a quarentena será relaxada. A ideia é a seguinte: o idiota fica vivo e retorna para o governo, desde que... – ele caminha em minha direção, batuca o meu nariz com o dedo indicador – Está ouvindo? Você retorna para o governo, mas tem que levar a Juju para a avó dela. E informar ao governo que o surto acabou. Se quiserem analisar nosso sangue, devem vir para cá, e ter certeza.

O homem é aplaudido. Aquelas pessoas sabem o que é angústia. Eu, somente hoje, estou descobrindo. Mas, também queria aplaudir aquele homem. Muito menos pela oportunidade de ir embora do que pela responsabilidade em auxiliar a Juju.

A proposta é aprovada. O careca ordena que eu desça do palco, e brada à Juju que dê lembranças aos pais. Em seguida, conclama os habitantes a continuar o tal julgamento.

Sou escoltado por dois homens fortes e quietos. Ando em direção ao carro. Eles sorriem e se olham como quem diz “esse aí é idiota mesmo”. Resignado, considero-me feliz por ser idiota. Os três, seguimos caminhando pela rua comprida e delgada da vila. Alguns minutos depois, o carro nos alcança. Sou algemado com as mãos atrás das costas, e convidado a sentar na cadeira do carona. Não reclamo. Pelo contrário, celebro em meu corpo a satisfação em olhar a motorista.

Assim que saímos da vila, perdi o receio e perguntei:

– Por que você resolveu me ajudar?

– De onde você tirou essa ideia, doidinho? – a voz continuou suave enquanto o sorriso sarcástico tornou-a vencedora perante o jardim. Mas, quando ela retrucou, temi novamente a morte.

Não tive muito tempo para pensar em algo a dizer. Juju estacionou o carro no mesmo local em que eu havia estacionado quando me aproximei da vila. E o rapaz ainda estava lá. Imóvel. Movia somente as mãos, acariciando os próprios braços. Lágrimas surgiam dos olhos fixos e obcecados por admirar a vila do alto; mas não havia choro.

– Você sabe o que aconteceu na vila?

– Eu sei o que foi divulgado pelo governo.

– Não, não me refiro sobre antes. O que o governo deve ter divulgado é história de criancinha perto do que nós assistimos e vivenciamos. Perguntei sobre os últimos acontecimentos, esquece. Besteira minha. Claro que você não sabe. Nem teria como saber.

– Verdade. Mas... Acho que preciso saber da tua família. Como poderei te ajudar? Não entendi essa história de você encontrar tua família.

A gargalhada daquela voz suave é bela como sempre. Contudo, novamente, ela consegue o temor à morte.

– Gatinho, tu é doidinho mesmo... Você não vai me ajudar. Deixa eu te explicar uma coisa: minha família não é daí. Eu vim curtir um fim de semana com meu namorado e aconteceu essa tal epidemia. Na verdade, acho que já estava rolando e não foi divulgado. Meu namorado adoeceu; então, fiquei para cuidar dele. Ele morreu e eu não pude sair da vila porque foi decretada a quarentena.

– Lamento.

Ela solta nova gargalhada suave, bela e assustadora.

– Lamenta nada. Você está louco por sexo! O que você quer saber mesmo é se estou ou não contaminada. – receio manifestar minhas emoções. – Fique tranquilo: eu não estou contaminada. Pode se preparar para avisar ao governo: a epidemia realmente acabou. Todos que você viu hoje são sadios. Senão já estariam mortos. Basta um dia para o contaminado morrer.

Sinto-me um idiota! Louco para acreditar nela. Mas, se não sirvo de fato para ajudá-la, como posso nela confiar?! A única opção é pedir para que façamos, logo, a viagem de retorno.

– Calma, gatinho. – ela põe a cabeça fora do carro. – Pepe, vamos comigo. Eles não quiseram matar esse daqui. Ele vai ser o mensageiro da cura. Vamos, deixaram voltar para minha família. Vem comigo, Pepe.

Se eu não soubesse que ela já conhecia aquele rapaz, iria supor que ele é surdo. A encantadora voz suave o convidava, mas ele movia somente as mãos, acariciando os próprios braços. Lágrimas continuavam a surgir dos olhos fixos e obcecados por admirar a vila do alto; e não havia choro algum.

– Gatinho, vou confessar uma coisa: eu estou... interessada em te conhecer melhor. Mas e você, está doidinho por mim o suficiente para fazer qualquer coisa? Quer mesmo merecer? – eu esqueci que não era prudente manifestar emoções.

Ela desceu do carro; foi até o Pepe. Ela fala algumas poucas palavras. Ele persiste imóvel. Vejo-a levantando o vestido com as duas mãos. Em segundos eternos revela a bunda vestida numa pequena calcinha. Ela pega algum objeto escondido sob a roupa. O rapaz prossegue imóvel. Os movimentos da mão direita revelam a seringa: ela aplica a injeção no pescoço do rapaz. Ele continua imóvel enquanto a voz suave caminha gritando para que eu desça do carro.

– Não percebeu que estou algemado? – indago quando ela se encosta ao veículo.

– Aiai, tem isso ainda. – assusto-me ao ver o rapaz cair. – Calma, calma. Ele caiu, certo? Calma. Não podemos demorar. Vou te contar tudo rapidinho. Você lembra que lá na assembleia falaram de terminar o julgamento?

Respiro ofegante. Quando cheguei às imediações da vila, sentia-me tão dono de mim e, confesso, aguardava recepção dada aos arautos da redenção. Agora, sou um algemado.

– Então, o Pepe está sendo julgado. Ele é o filho do farmacêutico que descobriu a doença que virou epidemia.

– Ah tá, ele é filho do dono da farmácia? Ah... o comerciante de remédios que informou à vigilância sanitária acerca dos avanços letais em todos os quadros clínicos possíveis.

– Para que você repete, doidinho? Está se ofendendo porque eu disse que o dono da farmácia de uma vila é farmacêutico? Que besteira!

– Olha só, diz as novidades. Eu já sei que as pessoas adoeciam de qualquer, digamos, bobagem, e, ao iniciar o tratamento, rapidamente o organismo se degenerava e...

– Verdade. Não temos tempo. Resumindo: vários foram morrendo e as tentativas de ajuda fracassaram; até porque muitos que vieram ajudar morreram. Um dia, lembro bem porque foi o dia em que o meu namorado necessitou de uma injeção e o levei à farmácia. Vinte e quatro horas depois, ele faleceu. Nesse dia, o Pepe começou a comentar que estava quase certo de como resolver o problema. Ele dizia: basta chegar a coragem e eu acabo com essa epidemia; a cura está na causa. Mas as pessoas riam dele, coitado!

– E ele não deve ter achado cura nenhuma para o surto. Está sendo julgado por fazer qual besteira?

Os olhos da mulher vitoriosa perante o jardim da vila em elegância e sutileza, simplesmente, venceram, também, os temores e as ameaças de qualquer religião.

– Ele não fez besteira. Quer dizer... alguns consideram que o modo como ele resolveu a epidemia não é digno. Querem castigá-lo. Para servir de exemplo às crianças da vila. Ele, ao menos eu, acredito, salvou a vila. Ele... Anteontem, as pessoas estavam se preparando para uma vigília de orações... quando escutamos dois tiros. Alguns gritaram: veio da farmácia, veio da farmácia. Quando chegamos lá, o Pepe disse: pronto, a doença acabou. Depois, ele saiu e caminhou até o jardim. Dentro da farmácia, o pai e a mãe no chão; tiro fatal na cabeça.

Dou cabeçadas no teto do carro:

– Esse cara é maluco! Ele deve ser preso. Não vou levar esse cara.

– Ele fez o que as equipes médicas do governo nacional não fizeram. O Pepe descobriu que as pessoas morriam depois de serem atendidas pelo seu pai. Quando iam à farmácia e o Pepe atendia, as pessoas não morriam. As mortes começaram depois que o pai do Pepe voltou da mata machucado. Ele nunca quis comentar como se feriu. E tem um detalhe: nos primeiros dias do ferimento, o pai do Pepe não procurou a esposa, você entende. Aí o detalhe: a mãe do Pepe, por ter feito sexo com o marido, tornou-se também hospedeira sei lá do que -vírus, bactéria- quem sabe. Quem era atendido por ela, antes, não morria; depois passou a morrer. Dizem que foi coincidência. Falam dos delírios do Pepe acontecerem no mesmo momento que a doença foi embora... Alegam a força das orações e isso e aquilo. Eu confio no Pepe.

– Ele vai ser condenado nesse tal de julgamento.

A suavidade já não estava presente naquela que é mais bonita do que o jardim. Ela desceu do carro. Depois, confiando na minha honra, libertou-me das algemas. Juntos, colocamos o exterminador de doenças no banco traseiro do automóvel.

– Você quer mesmo levar esse cara? Ele é um assassino.

– Faz um favor, gatinho, verifica se o julgamento já acabou.

– Você é louca? Não vou entrar nessa vila novamente.

– Ai gatinho, tu é doidinho mesmo, eu digo. Olha aí do alto: se avistar pessoas caminhando para cá, é porque já concluíram.

Angústia nos passos até o exato local onde o rapaz brotava lágrimas. Admiro os tetos cinza envoltos nas árvores. A romaria dos moradores é bonita. Se o artista estivesse aqui, ele pintaria novo quadro. O Pepe foi julgado e o veredito estava a alguns metros. Entretanto, não fiquei para saber. Girei o corpo em retorno ao carro: admito a surpresa quando vi o veículo em movimento; embora não houvesse tempo para surpresas. Iniciei minha corrida na estrada de barro para evitar que eu fosse o próximo a ser julgado. Quando alcancei um trecho com sinal de telefonia celular, pude, com muita dificuldade, ligar para o Ministério da Saúde. Mas... a Juju atravessou a barreira da quarentena alegando que o Pepe era o bioquímico enviado pelo governo nacional para coleta de material, e estava dormindo pelo cansaço do trabalho.

Lodônio de Poiri é poeta e escritor. Um epicurista anarquista e vice-versa

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