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Música brasileira e a moral do sofrimento amoroso

um ensaio por Moisés Morais



O sofrimento amoroso é um tema bastante presente nas letras de canções de diversos gêneros musicais no Brasil. Uma pesquisa na lista das músicas mais escutadas em 2021 no streaming, que possui o maior número de seguidores no país, nos conduzirá a essa constatação. Esse apreço musical atravessa grupos diversos com ralação à condição socioeconômica, de gênero e de faixa etária. Em suma, a chamada dor de cotovelo é conteúdo de composições que vão da música sertaneja à bossa nova e possui audiência entre jovens e velhos, na periferia e no centro, no campo e na cidade. .

Não podemos negligenciar sobre as artimanhas praticadas pela indústria da música para popularizar determinados artistas, canções e gêneros musicais, quando o interesse comercial é inconteste. Historicamente, o jabá foi à estratégia de marketing largamente promovida por gravadoras com essa finalidade, mas cabe considerarmos que do outro lado há quem se deleita com o constructo poético-musical em que se compartilham narrativas de vivências amorosas conturbadas e que resultaram em frustração e tristeza.

Com isso, é possível consideramos que o sofrimento amoroso se constitui como afeto predileto e que demanda da indústria fonográfica uma produção sub-reptícia de artistas e de músicas relacionadas a essa temática. Essa espécie de linha de montagem tem como foco produzir e vender acalanto para corações alquebrados em que o sentimento amoroso está associado ao desencontro, a solidão e a dor. Assim, não nos deparamos tão somente com uma forma de perceber uma característica da produção musical dominante, mas um modo de ser e estar no mundo onde a manifestação da tristeza e do sofrimento são expressões de bom gosto e do belo artístico.

Essa questão possui equivalência com a arte sacra de estética barroca na qual expressão hiperbólica da dor rende admiração. Logo, há elementos de longa de duração histórica relativos à cultura religiosa e às sensações abstratas, como a fé, transladando-se para o ambiente profano da música também vinculado com dimensões subjetivas, como o amor e a dor.

Romances conturbados, interrompidos ou não correspondidos, assim como a solidão são reconhecidos como dilemas dos mais insuportáveis para a existência humana. A dor provocada pela frustração amorosa é tomada como algo inexorável e intransponível contra o que não há perspectiva de superação. Com essa posição fatalista se negocia a convivência com a dor, ressignificando-a como algo belo ao ponto de transformá-la em fonte de gozo.

Disso decorre que a fronteira entre dor e prazer, tristeza e alegria deixam de assumir uma definição rígida. Então, músicas que trazem para o centro o lamento pelo drama amoroso não se restringem para serem desfrutadas apenas quando se estiver em uma fossa, ou em uma “bad”, para utilizar uma gíria mais recente. Sem nenhum estranhamento, canções com esse conteúdo compõe a trilha sonora de momentos celebrativos, como festas juninas ou comemoração de aniversários.

Esse estado de ânimo transborda para outras dimensões da vida? É crível que sim. Por isso, cabe refletirmos como os sujeitos se comportam com relação à política, a religião e o trabalho, se um modus operandi similar é acionado, quando o prazer é frustrado pela ação do que é enxergado como onipotente – Estado, Deus, patrão. Nesse caso, prefere-se negociar a sobrevivência e conviver com a adversidade, do que arriscar-se em uma luta em que se tem como certa uma derrota fulminante.

Com isso, nos deparamos com uma grande parcela do povo habituada ao desfrute da dor diante da impossibilidade de vivenciar o prazer. Como subterfugio, ri da desgraça que lhe abate, através de uma dissimulação zombeteira do sofrimento, ou assume uma postura que idealiza a sobrevivência penosa como algo que será recompensado no futuro, recaindo no fatalismo de que o que resta é a apenas a desventura de viver em uma tristeza que não tem fim.


Moisés Morais é Historiador e Professor.

Mestre em História pela UNEB.



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