• Armazém na Estrada

Mãe de Júnior

Atualizado: Mar 12

um conto por Achel Tinoco


Aquela mulher trazia no peito um filho. E foram meses de preparação, peso, dores. Mãe. Madrugada insone, seio, fralda, choro. Filho. Nada pode ser maior: embala, protege, ama: “Meu filho!”. ‘Mamã!’. Corre, cai, sorrir e vão-se os dentinhos de leite; o tempo vai a galope, e nascem os dentinhos do café. Minha mãe do céu! Cadê a escola, o aprendizado, o desenvolvimento? Estão ali; estão a cá. Tanto faz. Pra que a pressa? A vida ensina, forja, arremessa... Uma dúzia de anos ficou para trás. A voz engrossa, as pedras se assentam nos peitos, uma penugem circunda o lábio superior. Passa da meia-noite. Ninguém o convence a voltar para casa. A mãe se esgoela, chora, teme. Amanhã, aliciado, porta um fuzil e mata um vizinho na esquina da rua. É filho de quem? Droga! Onde a mãe falhou, não viu, tapou os olhos...? Excesso ou falta de amor?! Algum desvio da natureza humana. Tanto sacrifício. Que horror! “Onde eu errei?” A polícia já chegou atirando. Nada pode ser mais desesperador: embala, protege, enterra. Mãe. Desmantela-se: “Meu filho!”

Fim.


Achel Tinoco é poeta e escritor.

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