• Armazém na Estrada

Jantar Político no Salão da Sinhá

Atualizado: Mar 12

por Lodônio de Poiri

1-


Paletós, casacos, gravatas e opiniões.

A mesa é fornalha de perspectivas.

Jarros, copos, bandejas e ambições.

Um enfadonho cover de Oscar Wilde sorri

para a falsa donzela que recita Castro Alves.

Um caçula abolicionista ironiza os sufrágios.

- Em toda eternidade, os jovens pulsam transgressão.


As medidas da anfitriã senhora filantropa

revoga o limbo dentre as sinhás:


- Eles entregam muita fé nessa nova religião!

- Calma, essa democracia é um maneirismo da época.

- Meu esposo embala a contradança dos sufrágios.

- Moças longe do himeneu, sonham no píncaro dos votos.

- Oh, Jeová! Em qual versículo ordenas votações?!

- Será que a senzala escolherá os capitães-do-mato?

- Repudio sufrágio para definir minhas mucamas.

- Oh, não! Na balança das décadas acumulam sufrágios...

A anfitriã eleva os cabelos:

- Nos séculos vindouros, obrigadas seremos

a votar num club de sinhás?!


2-


Nos acúmulos seculares,

um caçula afrodescendente

balbucia no Pelourinho

as rimas do ‘Negro Drama’* -

talvez, de resposta, alguns gramas

à enigmática pergunta das sinhás:

- A senzala escolherá o capitão-do-mato?

No mesmo largo colorido

onde, no pesado ano de 1888,

outro efusivo afrodescendente,

balouçando o badalo de cobre,

anunciava os novos tempos:

“A escravidão findou.

A princesa, escravos libertou.

Caminhos são horizontes...”

E sussurrando aos festejantes:

“Vosmecês podem sair da senzala,

mas a senzala jamais sairá de vosmecês”.

3-

Enquanto as mucamas recolhem,

a sinhá do engenho doce, afeita a versos,

o seu ‘Diálogo dos Séculos’ recita:

“Na balança dos tempos, definido foi:

averiguar o voto enquanto panaceia.

Qual alegria imperial na interceptação:

- Saudações, século XX...

Aqui é o século XIX.

O sufrágio venceu os tempos?

A senzala já escolhe o capitão-do-mato?

- Saúde, século XVI e toda plêiade...

Aqui é o século XXI...

Muito embora as sazonalidades,

a senzala vota, sim:

escolheu o dândi abolicionista

filho da sinhá filantropa”.


Risos de amoras dentre as convidadas no salão.


Lodônio de Poiri é poeta e escritor. Um epicurista anarquista e vice-versa




[1] Negro Drama: título de canção do grupo de rap “Racionais MC’s” gravada no álbum “Nada como um Dia após o Outro Dia” (2002).

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