• Armazém na Estrada

Filhos do mar, navegantes da fé

um conto por Margarida Fontes


Foto: https://expressodasilhas.cv/

Explora as aventuras dos pescadores no mar, com condimentos de crenças locais e mitos do sobrenatural. O lugar central é a Ilha do Fogo, em Cabo Verde, arquipélago africano. Contém alguns diálogos em crioulo – a língua materna falada no país.






1. A maldição

Miguel de Joana estava habituado a conversar com nossa Senhora. Fazia o seu trajeto habitual em direção ao cais, onde se juntava a Pedro di Neta, seu parceiro de décadas, para partirem para a pesca. As histórias de capotona e feiticeiras que choravam na cruz nas noites de sexta-feira metiam medo a muita gente, menos aos pescadores que nem aos bichos raros do mar temiam. O Miguel era um homem enorme, de tamanho descomunal, destemido, e falava sempre aos gritos com uma voz rouca um pouco afetada pelo grogue que bebia religiosamente todos os dias pela tardinha. Até parece que o grogue na vila de São Filipe não fazia mal ao fígado, de tão banal o seu consumo, nas horas livres na roda de amigos.

Nessa noite de sexta-feira, na sua conversa habitual com Nossa Senhora, Miguel dizia que não temera bruxas nem demónios, porque é um homem de fé.

- Nha fé é na nhá, Nossa Senhora, esbravejou![1]

Antes de pegar a estrada de calçada, Miguel percorria o caminho de terra batida, feito de pequenos cutelos e muitas curvas esguias, sempre conversando sozinho, ou com Nossa Senhora. Passava por casas de gente que sempre reconhecia os passos e as vozes dos pescadores que, ao longo de décadas, faziam o mesmo trajeto.

- Miguel gosta di papia el só,[2] disse dona Germana, senhora corpulenta, supersticiosa, que mal dormia às sextas-feiras. Passava a noite inteira em claro a rezar e a esconjurar, e observava pela greta da porta todo e qualquer movimento suspeito na rua.

Na rua, o vento zunia, e os poucos pelos do corpo do Miguel eriçaram dos estranhos arrepios causados pelo frio que atravessava intermitente a extensa escuridão. Nem um sinal de luz. Ele caminhava a passos largos quando, de repente, sentiu-se cercado por vultos e resolveu acender o seu light, que sempre levava no pequeno saco de nylon cosido à mão, para alguma eventualidade. Ao atravessar a ponte da Ribeira Trindade viu uma fila de vultos desformes que vinham do mar e subiam pela estrada estreita em direção ao entroncamento que separava a vila do interior. Começou a esconjurar: vade retum satanás, cusa runho bá rabenta na mar di undi bu bem. Mi n ka tem medu bó.[3]

Miguel, de repente, retraiu-se, quando percebeu que a fila de vultos estava a aumentar de modo assustador e os cães de rua começaram a ladrar em sinfonia de terror. Da ponte onde estava, viu uma janela a abrir-se. Na modesta casa, situada no alto de um pequeno cutelo, assomou uma pessoa, e ouviu-se esconjuros, repetidos três vezes, da voz de uma mulher que, no entanto, logo de seguida fechou a janela. A madrugada já estava perdida para o Miguel, que desistiu de ir à pesca e decidiu voltar para casa.

De regresso, passou novamente pela casa de Germana, que o viu sorrateiramente da greta da porta, sem que Miguel percebesse que estava sendo observado. Nesse instante, ouviram-se estrondos, e o pescador correu desalmadamente por caminhos improvisados acima, não poupando esforço físico para chegar à sua casa e esquecer essa noite. Germana começou a rezar em voz alta, acendeu velas, esconjurou. Hoje és bem di grupo. És sta djobe alguém pes rabenta nél[4], esbravejava.

Miguel chegou à casa, entrou pelo portão, que sempre ficava encostado, e foi dormir no aposento do quintal, sem que a mulher percebesse que tinha desistido de ir à pesca. Mal pregou o olho. Só por volta das cinco da manhã conseguiu puxar uma soneca leve, mas que não lhe permitiu descansar. Aliás, era impossível descansar, depois de uma noite daquela.

Quando Fatinha, mulher do Miguel, percebeu que ele estava a dormir no quintal e que não tinha ido à pesca, estranhou o facto. Sem mencionar o que aconteceu ao longo da noite, lá foi explicando que decidiu voltar para casa porque sentiu fortes dores de cabeça, e que provavelmente estaria com a tensão alta. A mulher apalpou-lhe a testa, disse que estava tudo bem, sem febre, e foi logo preparar-lhe um chá de erva doce com alho de terra. Da cozinha, falando em voz alta para o marido ouvir, disse que a noite anterior tinha sido muito pesada com cães a ladrar sem parar.

- Noti pisado, sombradu propi. Arguém ba cendê na noguêra, di certeza. És tem bida mofinu. [5]

Fatinha dava a sua explicação sobre os mistérios da noite passada, e o marido continuava mudo, sem reação.

Miguel di Joana, tal como todos os demais pescadores da ilha do Fogo, são homens audazes e corajosos que gabam da sua força, incapazes de vergarem-se diante de espíritos ou forças do além, ou outras intempéries. Quando é que homens habituados a enfrentar a fúria do oceano com bravura, podiam recuar diante de bruxas e capotonas? Isso não podia acontecer. Era essa a crença instalada na cabeça do Miguel. Ele não podia contar a ninguém que teve medo de “cusa ”. O seu orgulho de homem do mar, não permitia que contasse à mulher o que tinha vivido na noite passada. Guardou o seu temor, como um segredo íntimo. Só que Germana, a guardiã da noite, sabia de tudo.

À tardinha, no sábado, Pedro di Nha Ida, que tinha decidido dormir no cais e esperar pelo parceiro de lida, subiu à cidade e passou pela casa do Miguel, para saber a razão da sua ausência na sexta-feira, mas também tinha algo para lhe contar. O Miguel disse que desistiu da pesca no meio do caminho, por causa de uma forte dor de cabeça. O Pedro não desconfiou de coisa alguma e começou a abrir-se com o companheiro.

- Vim contar-te o que vi, ontem à noite, para cortar o mal. Hoje, desde cedo, nem um gole de grogue coloquei na minha boca. Tinha que contar esta história em jejum a alguém para cortar o mal e evitar que o pior aconteça.

O Pedro garantiu ao amigo que viu capotonas de todo o tamanho a saírem do mar e a subirem em fila indiana em direção à cidade que todos chamavam de vila, e jurou que nunca mais dormiria às sextas-feiras no cais. Dali em diante, não duvidaria mais do que ouvira dos mais velhos. Sexta feira di noti ê ka limpo, Tudo cusa runho ta sai[6].

Mesmo com a confissão do amigo, Miguel, um dos mais valentes pescadores da vila, que tinha fama de pegar atuns de qualquer tamanho com um único golpe de anzol, não teve a coragem de contar o horror da noite passada.

No domingo, Germana foi assistir a missa na capela de Santa Filomena, perto da casa do Miguel. Depois do fim da missa, passou em casa do amigo para tomar uma xícara de café. Era um bom hábito essas visitas domésticas, depois da missa, para se beber uma chávena de café e dar um dedo de prosa. Enquanto saboreava o seu café di terra, aproveitou a súbita ausência da Fatinha, que saiu para comprar umas bolachas e um quilo de açúcar na lojinha do lado, e atirou-se ao Miguel em modos provocatórios.

- Ahn, Miguel, sexta-feira n odjabu. N ka sabe ma bu era conbardu, sim. Arguem, ora kel odja capotona, el ka debe sinti medo, nem faze kel mesmo camim di volta pa casa. Ora ki bu odja capotona é basta bu ka bá na se diresan. Capotona ka ta bira, nem muda di estrada, sê camim ê retu. Basta bu desvia dél. [7]

O Miguel suplicou à Germana que guardasse o segredo.

- Nha Germana, kêli ka nha papial temente nha tem vida. [8]

Prometeu oferecer-lhe uma boa quantidade de peixe todas as semanas em nome desse segredo. Mas, para cortar o mal, Miguel tinha que confessar o segredo a alguém no sábado, e em jejum, como fez o seu companheiro Pedro di Nha Ida. O pescador, sem saber, já estava amaldiçoado e nunca mais voltou ao mar. Não fez os esconjuros que devia fazer quando sentiu os vultos, e nem contou sobre as capotonas em jejum para evitar o pior. Caiu na bebida e com o tempo mal conseguia pôr-se em pé. Adoeceu também de desgosto. E todos na vila diziam que ele foi amaldiçoado. Nha Germana nunca contou o segredo do Miguel a ninguém. Muito se falava sobre a situação do Miguel. Diziam até que ele tinha sido escantxadu[9] por uma alma penada que voltou para acertar as contas com ele, um amigo já falecido com quem teve uma zanga braba, e morreu sem que pudessem fazer as pazes. Mas ninguém tinha certeza de nada. Só Nha Germana.


2. O milagre


A festa de Bandeira de São João desse 24 de Junho de 1980 foi particular. Decorreu num ambiente de tristeza na zona de Cancelo Riba. As coladeras, mulheres que durante a bandeira espontaneamente cantam ao som de tambores e do pilão, nesse dia entoavam choro. Os tamboreiros com toques mais cadenciados e menos eufóricos interpretavam a profunda tristeza sentida por todos. Faziam pausas, rezava-se muito, pedindo a São João que trouxesse de volta os pais, maridos e filhos daqueles que tinham ficado em terra. Pedro Nha Jónia, Palim di Txica, e Amâncio estavam desaparecidos no mar há 12 dias. Durante a missa, o padre Inácio pediu que todos rezassem e pedissem a São João que guardasse esses bravos filhos da ilha no meio do oceano.

Os três homens pescavam juntos há mais de 10 anos, e conheciam os mares das ilhas como a palma da sua mão. São filhos de pescadores, cresceram no mar, e há cinco anos conseguiram juntar dinheiro e comprar um bote a motor. Deram-lhe o sugestivo nome Deus ki da[10]. Num domingo saíram para pescar na costa da Ilha Brava, com a intenção de permanecer mais tempo no mar e trazer uma variedade de pescado. Junho não era um bom mês para a pesca, e exigia muito esforço e criatividade no alto mar.

Pedro Nha Jónia era o festeiro da Bandeira de São João daquele ano, e foi para a pesca, portanto, com a intenção de regressar quatro dias depois e preparar, com grande impacto, a grande festa. Já tinha convidado amigos de todas as zonas. Depois de seis dias sem dar sinal de vida, os familiares entraram em recolhimento, caíram em profunda tristeza e começaram a receber visitas em casa, com choro aberto, como se os seus entes queridos estivessem já mortos. As autoridades começaram as buscas, mas como a ilha não dispunha de grandes embarcações, os esforços feitos não estavam a dar muitos resultados, para o desespero dos familiares e a insatisfação da população.

O correspondente local da rádio acompanhou de perto o caso desses pescadores que causou comoção geral, e houve, inclusive, um protesto nas ruas organizado por amigos e alguns pescadores que consideraram que as suas vidas não são muito valorizadas.

- Se fosse gente com posse que estivesse tantos dias desaparecidas, o tratamento das autoridades seria outro. Não nos ligam nenhuma, disse Nha Nega, uma das peixeiras presentes no protesto, numa entrevista que deu à rádio de Cabo Verde.


Os dias foram passando, sem notícia alguma de Pedro Nha Jónia, Palim di Txica, e Amâncio. Os três nasceram e sempre viveram em Cancelo acima, zona alta da cidade, povoada por muitas famílias de pescadores. Naqueles dias notava-se a mesma melancolia nos rostos de todos os moradores da localidade. Natália, esposa de Pedro Nha Jónia, entrou de luto e já se sentia viúva, passando a vestir-se de preto dos pés à cabeça. Até os brincos forrava com pano preto. Os familiares de Palim di Txica e Amâncio ainda mantinham esperança e se recusaram a pôr luto. Nha Nuna, mãe do Amâncio, o pescador mais novo dentre os três, dizia que o seu coração estava a contar-lhe que eles haveriam de voltar para casa.

- Nhô Sandjon ta trazês. N ta raza tudo dia. Nha santu di fé ka ta fadjan.[11]

As horas de fé e esperança eram frágeis e intermitentes, sempre interrompidas com gritos de dor e desespero, principalmente nos momentos em que os familiares dos pescadores desaparecidos recebiam em casa visitas de pessoas que vinham de todo o lado para deixar palavras de consolo e alento, e saber de alguma novidade.

O mais insuportável nisso tudo eram as dúvidas. Não saber se Pedro, Palim e Amâncio estavam vivos ou mortos. Os dias se tornaram longos, a atmosfera carregada, as noites infindáveis. Os meninos conseguiam dormir, mas os adultos mal pregavam o olho. Qualquer luz no mar fazia reacender uma ponta de esperança no canto dos olhos esbugalhados de dor. Por onde andam os nossos queridos: nós fidju, nós marido, nós pai, nós ermum[12], choravam em coro os familiares, vizinhos e amigos.

- Oh Pedro, oh Palim, oh Amâncio, pamodi?

Logo pela manhã, os vizinhos vinham preparar o café, fornadas de pão, e o cuscuz para depois montar a mesa e receber os visitantes que chegavam de todos os cantos da ilha. Os visitantes vinham diariamente e nunca chegavam de mãos vazias. Faz parte da tradição, traziam sempre verduras, frutas, sumos, bolos e aguardente, para aliviar as despesas dos familiares durante esses dias.

Foi dessa forma, como num filme de suspense e horror, que se passaram 40 dias, sem que a ilha tivesse notícias dos três pescadores. Dias e noites de muita angústia e dor pairando no ar. Havia muito tempo que no Fogo não se via tanta tristeza. Natália, a mulher do Pedro, certa noite foi levada ao hospital com convulsões, e acabou por ficar internada sete dias. Alimento algum lhe passava pela garganta, nem água, uma boca amarga como nunca sentira na vida; era da tristeza. Definhou que parecia um fio de linha de tão magra. Ficou ligada ao soro uns três dias.

No dia 22 de julho, Nhô Joaquim, que vivia com o pequeno rádio de pilha sempre ao pé do ouvido ou na cabeceira da cama, zarpou em tiro e aos gritos para a casa de Nha Nuna, mãe do Amâncio, levando uma novidade. Ouviu no rádio que foi resgatada no Recife, Nordeste do Brasil, uma embarcação à deriva com três pescadores que se presumira serem de África. Estavam todos com vida, mas muito debilitados. De imediato, deram início a uma sessão de reza que se prolongava praticamente por todo o dia. Mal amanhecia o dia seguinte, o terço era retomado.

No Brasil, os homens resgatados foram imediatamente internados e estariam a receber os melhores cuidados médicos. Há uma grande esperança de serem os pescadores de Cabo Verde, mas a informação não podia ser confirmada, porque estavam todos inconscientes.

Naqueles dias, as gentes da ilha passaram a ouvir o rádio ao longo do dia. Nada era mais importante do que isso. Na hora do noticiário, viam-se pequenos grupos de mulheres, homens e crianças, à volta de um aparelho, à espera de uma novidade que pudesse aliviar a tensão.

- Estão a falar de pescadores, estejam calados, gritavam uns.

- Estão a falar de pescadores, sim, mas sobre um outro assunto, não dos pescadores encontrados no Brasil, respondeu o dono do aparelho que parecia ser o ouvinte mais atento do grupo.

Ficavam extremamente desapontados com os jornalistas sempre que davam as notícias, uma hora ou outra, e por falta de novidade, não mencionavam o caso dos pescadores encontrados no Brasil. Xingavam logo de seguida com todos os nomes imagináveis.

No quarto dia de internamento, o mais jovem dos pescadores foi o primeiro a balbuciar umas palavras. Os outros dois, embora não estivessem a correr perigo de vida, continuavam ainda muito debilitados e com um quadro de delírio que inspirava cuidados médicos especiais. Tinham bebido muita água salgada, estavam com a pele do corpo queimada e maltratada, por causa do excessivo sol durante o dia e do frio das noites. Aparentavam ambos mais de cinquenta anos, não eram mais crianças. Apesar do físico imponente, não podiam aguentar mais daquilo que aguentaram. Por pouco, não morreram.

Os médicos, por mais que se esforçassem, não conseguiam decifrar as poucas palavras pronunciadas pelo pescador mais jovem. Ele não tinha forças para falar com clareza, e a língua utilizada soava muito estranha para todos no hospital. Essa notícia foi transmitida pela rádio, e deixou os familiares apreensivos, com receio de que os pescadores resgatados pudessem não ser Pedro, Palim e Amâncio. Mas era tudo muito estranho, porque a descrição batia muito bem com os três.

- Como é possível não entenderem a língua, se o nosso crioulo é parecido com o português, Nhô Joaquim passava o dia a resmungar, sempre com o rádio ao pé do ouvido.

A novidade chegou pela noitinha. Pedro, ao acordar e depois de ter recuperado minimamente a memória, percebeu, pela movimentação, que estava no estrangeiro. Aqueles médicos todos brancos, e as próprias condições do quarto onde estava internado davam logo a entender que não estava na sua terra. Mal conseguiu recuperar-se, quis saber dos seus companheiros, agradeceu muito a Sandjon, e de seguida queria saber quando seriam depois enviados para Cabo Verde. O nome do país pronunciado por Pedro foi a resposta que todos no hospital ansiavam, para confirmar a identidade dos pescadores resgatados.

O hospital informou à Embaixada de Cabo Verde no Brasil que tudo indicava que os pescadores saíram de Cabo Verde, já que para além das descrições que correspondiam aos três homens resgatados no mar, um deles falava insistentemente no nome do país e da sua ilha natal. As identidades de cada um seriam confirmadas, posteriormente, quando recuperassem a saúde e mais lucidez, porque ainda estavam muitos confusos e frágeis.

Como um rastro de pólvora a notícia chegou à Ilha do Fogo e os ânimos começaram a levantar-se na localidade de Cancelo Riba. A rádio transmitiu a notícia hora a hora, os jornalistas foram entrevistar os familiares e vizinhos, e o assunto teve impacto nacional. O país todo se contentou com a boa nova.

Na ilha, tudo estava a ser preparado, ao pormenor, para receber Pedro Nha Jónia, Palim di Txica e Amâncio.

- Keli ê milagre Nhô Sandjon, dizia Nha Nuna, mãe do Amâncio, que nunca perdeu a fé, e sempre dizia que o seu coração lhe estava a contar que os seus bravos homens não iriam morrer no mar.


Pedro, Palim e Amâncio aterraram na ilha do Sal bem cedo, numa terça-feira. O avião que os trouxe fazia uma curta escala na ilha a caminho de Lisboa. Duas horas depois, seguiram num voo doméstico com destino à Cidade da Praia. No aeroporto da capital estavam a ser aguardados por alguns familiares do Fogo que aí viviam e tinham também à espera muitos jornalistas. Deram uma curta entrevista, sem adiantar muitos pormenores, porque estavam muito emocionados. Contaram que sobreviveram por causa da sua fé. Chovera algumas vezes e puderam armazenar água doce para beber. Pescavam e secavam os peixes que iam comendo, à medida que eram levados pela correnteza. Dos três, o Pedro era o único que nunca perdeu a esperança de avistar terra firme, e sempre acreditou que pudesse ser o Brasil.

- Se Pedro Álvares Cabral alcançou o Brasil, naqueles tempos, é porque era esse o caminho de Deus, sentenciou.

Na Praia, hospedaram-se por uma noite em casa de familiares e, no dia seguinte pela manhã, seguiram no pequeno ATR para a Ilha do Fogo.

Quinta-feira, às 11 da manhã, aterraram em São Filipe. Foram recebidos por uma grande comitiva e levados pela multidão num cortejo pela cidade. Depois, finalmente, chegaram às suas residências em Cancelo Riba. Um misto de emoção e dor tomou conta de todos: houve gritos e choros, toques de tambor, milho no pilão, grandes mesas fartas expostas na rua. As coladeiras cantavam e acenavam com a bandeira de Nhô Sandjon. Quem visse a imagem, pensaria tratar-se de uma típica festa tradicional de Bandeira Nhô Sandjon. A partir dessa data, em saudação ao milagre que salvou Pedro, Palim e Amâncio, na localidade de Cancelo Riba, a bandeira de São João passou a ser celebrada no dia 11 de agosto. A bandeira passou, a partir daquela data, a ser alternadamente “dada” pelas três famílias dos pescadores.

Pedro, Palim e Amâncio nunca mais regressaram ao mar.

Passaram a viver de uma pequena pensão que recebiam do estado, e sempre que solicitado construíam botes. Pedro e Palim morreram no mesmo ano, em 1996. Amâncio continua vivo, e até hoje conta, com pormenores, a saga de quarenta dias que viveram em plena fúria do oceano atlântico, entre a vida e a morte.


FIM

[1] Fé tenho em si, Nossa Senhora [2] Miguel gosta de falar sozinho [3] Vade retum satanás, coisa ruim, vá arrebentar lá no mar de onde saiste. Não tenho medo de ti [4] Hoje vieram em grupo. Estão à procura de alguém em quem exploder (possuir) [5] Uma noite pesada, assombrada mesmo, alguém foi à Nogueira fazer bruxaria: má vida tem essa gente, [6] Sexta-feira à noite são más horas. Tudo o que é ruím vem cá para fora [7] ahn, Miguel, vi-te na sexta-feira. Não sabia que eras tão medroso assim. Quando alguém avistar um lobesomen não deve sentir medo, nem fazer o mesmo trajeto de regresso à casa. Quando veres um lobesomen simplesmente desvie da sua direção. Lobesomen não vira de lado, nem de estrada, o seu caminho é reto. Basta tu te desviares da sua direção. [8] Dona Germana, não fale neste assunto enquanto viver. [9] Possuído [10] Oferta de Deus [11] São João os trará de volta. Rezo todos os dias. O meu santo de fé não me faltará. [12] Nossos filhos, nossos maridos, nossos pais, nossos irmãos



Margarida Fontes é jornalista e escritora.

Autora dos livros (poesia):

“De Lírios” e “Confidências do Tempo”.

Nasceu na Ilha do Fogo, em Cabo Verde,

e reside na Ilha de Santiago.

Para adquirir o livro “Confidências do Tempo” clica AQUI!

113 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo