• Armazém na Estrada

Ensaio sobre a Nossa Língua

Atualizado: Mar 12

por Achel Tinoco


Qual a riqueza maior de um país? A língua. Todos concordam? Se concordam, por que não cuidamos mais dela? Triste língua portuguesa: maltratada, ignorada, desprezada, reinventada feiamente nos botequins da esquina, nas placas comerciais, nos comerciais da TV. Já não aprendemos a falar corretamente, isso dá ares de boçalidade e preciosismo, dirão alguns sectários da escrita vulgar, copiamos o que ouvimos e ouvimos estarrecidos a própria voz desentoada pelas sílabas mal ditas.

“Ler dá uma preguiça danada”, coisa de desocupado, de quem não têm o que fazer. Exemplos: escritores, linguistas, dicionaristas, bibliófilos. Livros à mão cheia então é coisa de poeta apaixonado, que disse mais pelos amores perdidos nos livros do que pelos livros perdidos de amores; que desenrolou habilmente a língua para declamar seus versos, embelezando ainda mais as Vozes d’África que trouxera dentro de seu Navio Negreiro. E ela, a mãe de nossa língua, parecia mais bela do que todas as amantes.

Não somos incapazes de aprender a concordância das palavras. Éramos um povo Tupi-Guarani. Mas hoje tememos a própria língua, humilhamo-la publicamente e a pregamos ao céu da boca, para que a boca aberta, ao invés de fechada, não nos denuncie à velha gramática. Temos tanta ojeriza de andar com desenvoltura pelas páginas abertas dos livros, de corresponder à verossimilhança das histórias fantásticas e também da realidade inverossímil da arte de aprender, aquela em que se diz que ao povo basta falar e ouvir, mesmo com palavras distorcidas ou gestos de surdo-mudo. Porque se esta gente entende tais sinais, basta. Não desperdicemos tempo com aprendizados fúteis, muito menos com o esmero de nossa língua tão enrolada. Se aquele que chega ao mercado sabe, em poucos dígitos, pedir a farinha e o feijão, deixemos a poesia da língua aos portugueses, aos poetas, aos sonhadores, porquanto o cidadão comum não precisa cultuá-la, mesmo que por isso perca a alma e a beleza de existir.

Na verdade, perdemos a sede do saber.


Achel Tinoco é poeta e escritor.

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