• Armazém na Estrada

Dobrando à esquina

Atualizado: 11 de dez. de 2021

um conto por Achel Tinoco


A rede, presa ao armador por punhos de aço, estendida de um lado ao outro da varanda, faz-me sentir como um velho rabugento a balançar o idoso espírito para lá e para cá junto com a fumaça do cigarro que sobe serpenteando a tardinha e impregnando o meu bigode esculpido e cofiado há anos, desde o dia em que o meu pai permitiu-me copiá-lo, como ele o havia copiado do pai dele. Apesar da minha idade — 67 anos —, nessa idade a vida começa a pesar nos ombros, não é mesmo? Os ossos estralam com facilidade e há certa chatice no convívio consigo mesmo, já chegando ao fim do crepúsculo, a lembrar-me de que o tempo passou e eu não sou mais aquela criança reprimida e solitária que se escondia atrás da porta do quarto para bisbilhotar os meus pais se engalfinhando — pelo menos era o que eu acreditava. Ou, depois de mais esperto e de conseguir discernir com clareza o que os olhos viam: um montado por cima do outro fazendo uma coreografia estranha entre gritos medonhos e sussurros cansativos que me davam nos nervos. Não entendia como se podia discutir daquele jeito. Via-os, em seguida, esparramados pelo chão, lado a lado, como trapos velhos, de costas e com as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando para o teto, como a contar as aranhas que teciam suas frias teias nas vigas expostas da cumeeira, sem nada mais a dizer um ao outro depois do descaramento sexual e da obrigação cumprida. Eu corria à rua para espantar a cena animalesca de minha cabeça, deixando-a ir presa à linha da arraia que empinava com os moleques da vizinhança. Mas foram tantas as cenas, que a linha ficou pouca para amarrá-las. Até hoje ainda me lembro daqueles mugidos desesperados de ambos. Quando enfim os compreendi, não pude exteriorizá-los com medo de que a minha irmã, costurando no quarto ao lado, também não soubesse distingui-los e entendê-los, dado a sua pouca experiência como mulher, eu imaginava erroneamente. Fazia muito, já havia sido passada para trás por um primo italiano que passara umas férias conosco.

O ranger da tranca de sustentação me desperta do passeio pelo alto da serra onde estou. Levanto-me preguiçosamente da rede, calço os chinelos de couro e debruço-me sobre o gradil de madeira à frente para rever a Cidade Sol lá embaixo, do mesmo jeito como eu a via na minha infância distante. Mudou quase nada, aliás, a cidade natal de todo mundo deve ser assim: fica edificada na lembrança por determinado período e dela não nos desfazemos jamais, parece a mesma apesar da quantidade de anos passados, e a minha não foge à regra. Sempre que volto para visitá-la, encontro-a do mesmo jeito, a mesma de quando eu passeava pela Praça da Bandeira, ao entardecer dos domingos, de mãos dadas com uma amiga, sob os olhares desconfiados e suspeitos de nossos conhecidos que diziam nunca nos ter visto aos beijos colados na boca, porque “o filho de dona Ida e de seu Giuseppe não gosta da ‘fruta’, mas de flor”. Incomodava-me tão somente o que os meus pais poderiam pensar a meu respeito se tais difamações lhes chegassem aos ouvidos. E chegaram, no início da manhã de uma segunda-feira chuvosa, quando ele ainda abria a porta de ferro do seu estabelecimento de trabalho. A comadre da loja ao lado comentou assim por alto, porque, segundo ela mesma dizia, não gostava de fazer futricas, que eu tinha uns trejeitos estranhos, andava sempre pelos cantos e nunca ninguém me havia flagrado com uma namorada. Ora, meu pai chegou em casa soltando fogo pelas ventas, pegou-me pelas orelhas e botou-me de castigo com a cara na parede por duas horas, sem que eu soubesse o porquê. A minha mãe, em sua sujeição doméstica, despejou todos os desagravos sobre ele, sem que, entanto, pudesse-me defender ou tirar-me do castigo imposto.

Apesar do crescimento obrigatório a que o tempo impõe e de alguns prédios altos construídos no Centro, Jequié ainda me parece a mesma: o comércio não mudou de quando os primeiros italianos chegaram de Trecchina, fugindo da Primeira Guerra Mundial, para incrementá-lo. Dentre eles, o meu pai, portador de um curso profissionalizante — contador. Os problemas também são os mesmos: falta água e não há saneamento básico para todas as casas e ainda crianças pedem esmolas nas sinaleiras. Os políticos também não mudaram. Na minha adolescência, eles prometeram transformar esta cidade num polo de desenvolvimento e turismo, gerando empregos e bem-estar a toda gente. Até hoje não trouxeram a praia para cá, muito menos turistas que não sejam os que veem todos os anos visitar parentes na época do São João e do Natal. O povo é pobre, carente de educação, de transporte e de segurança. O único progresso mais chegado veio com o advento das drogas, que corrompeu a sociedade e instalou nos canteiros centrais a violência. E se eu não tivesse ido estudar na Capital, aos 18 anos, debulhando-me em lágrimas, para me tornar funcionário público, a contragosto do meu pai, que me queria ver engenheiro, como o pai dele também queria que ele o fosse, eu seria um deles escornado no banco do jardim, puxando ou vendendo “baseados”; ou já um velho de cabelos brancos e bigodes desleixados, dono de mercadinho, esperando pelo milagre econômico que todo candidato prometera.

Aqui do alto da serra onde está fincada a casa minha e de minha irmã, a mesma de quando tínhamos cinco, 10, 17 anos, continuo a ver a Catedral de Santo Antônio. Lá eu me punha nas escadarias a pensar na vida, apesar de tão pouca idade, e nas inquietações do padre Agostinho, do colégio Os Vocacionais, em Itambé, onde eu estudava interno e fui assediado pela primeira vez por um homem. Mais do que isso: um padre. E eu fingia não entender o que ele queria. Vejo os mesmos telhados disformes e enegrecidos das casas lá embaixo, ainda que umas poucas delas tenham sido encobertas pelos pretensos arranha-céus enfiados no meio. Continuam pintadas de azul, de amarelo, de verde, ou com a cor natural do barro dos tijolos à mostra, porque os seus donos não conseguiram caiá-las por inteiro, porque o dinheiro acabou antes do que fora previsto. Ficaram assim como um arco-íris moribundo, sujo e desbotado pelo tempo, diferentemente da minha “bandeira”, que continua viçosa e colorida, a despeito do olhar preconceituoso da gente desta cidade, de todas as cidades e até do mundo.

O sol a tremular sob as minhas vistas bifocais de hoje impõe-me à testa gotículas de suor. A todo instante preciso limpá-las com as costas da mão para não salgar os olhos, posto que o hábito de antigamente, o qual meu pai nunca desprezara, de andar com um lenço de pano no bolso, foi desprezado por mim depois de ser severamente criticado por um professor, no ginásio, que me disse diante da turma: “Usar lencinhos é coisa de fresco!” Apoio maciço dos colegas ao dito professor, restou-me aceitar que ele tinha razão. Mas do meu leque roxo ninguém teve argumento suficiente para me fazer jogá-lo no cesto de lixo. Evidentemente não o usava em público, apenas na intimidade do meu quarto, devido ao calor insuportável que entrava junto ao estio, esse que ora desponta na esquina.

Fugirei, amanhã cedinho, para a Capital.

Dos meus doze irmãos legítimos, dez já morreram e um não sei que fim levou, foi-se embora para a Itália e não mais ficamos sabendo dele. Talvez tenha morrido, como todos os outros. A minha irmã, única remanescente, também morou na Capital, formou-se em Pedagogia e ensina, faz muitos anos, em escolas públicas. Com a morte dos nossos pais, resolveu voltar para casa e para o seu solitário “barricão”, como se dizia das mulheres que não se casavam. Agora me vem interromper o passado para oferecer-me um copo de suco de umbu, tão comum nesta região da Bahia.

— Em que está pensando, mano? — pergunta-me sorridente, como sempre foi.

— ‘Na morte da bezerra’ — digo-lhe brincando. — Ou melhor: nesta casa, precisamente, e em como ela se entregou ao descaso e se deu ao tempo.

— Não, a casa é a mesma, com seus três quartos amplos, sala, cozinha. Até as teias de aranha devem ser as mesmas, os mesmos ratos fazendo picula no telhado e os sardões sujando pouco mais as paredes. Ainda posso ouvir o murmurinho à mesa na hora do almoço e do jantar, e posso ouvir a gritaria de nós todos até a hora de dormirmos amontoados um por cima do outro. Acho que nós é que nos entregamos às velhas lembranças no intuito de encontrá-la do mesmo jeito que a deixamos há mais de 40 anos.

Diante da explanação madura e incontestável, pouco me resta a dizer:

— Talvez você esteja certa!

Sorvi o suco de um gole único, muito refrescante, e devolvi o copo à bandeja de prata, relíquia preciosa que pertencera à minha mãe. A minha irmã guarda-a com todo ciúme e cuidado e somente a usa em ocasiões especiais, como hoje, que estou a visitá-la. Enxugo a boca com as costas da mão esquerda e volto-me à rede, roçando as paredes lodeiras ao pé de tantos anos sem pintura nova. Descalço novamente os pés e deixo o peso do meu corpo empurrar a rede de mansinho ao idoso passado, até a meia altura da parede do meu quarto, que me facilitou uma vez pular para a cama de Arnaldinho Botelho, vizinho que dormira em minha casa uma vez pretextando estudar comigo. Havia me mandado alguns bilhetes convidando-me a passear na beira da Barragem de Pedra. “Vamos flertar com os ‘brotinhos’”, estava sublinhado no post scriptum. Uma vez eu fui. Não encontrei broto algum, ficamos sentados no gramado seco que havia sob um umbuzeiro contemplando o sol-pôr. Não entendi bem o que aquele passeio significava, até que ele começou a acarinhar meus ombros, minhas pernas. “Que é isso, rapaz?!”, perguntei-lhe confuso, mas não tive coragem de rechaçá-lo. Permiti que fôssemos adiante. Adiante havia um despenhadeiro e, no afã do amor inicial, despenquei pelo barranco abaixo e fiquei todo estropiado. Arnaldinho correu pelo outro lado para socorrer-me. Outros dois colegas nossos de escola que estavam a nos procurar, viram-me do alto e também correram ao meu encontro. Fiquei mais desconcertado com a presença deles do que com a queda em si, e não tive como desfazer da minha face rubra o idílio. Um deles, Beto Grillo, com quem mantenho amizade até os dias de hoje, disse para o outro em deboche: “Essa bicha pensa que não sabemos que estavam de ‘troca-troca’. Pois sim!” Ainda não admitia para mim mesmo a minha opção sexual e morria de vergonha, com medo de que alguém percebesse, naquela cidade atrasada, o que eu andava a fazer pelos cantos, dentro dos matos, sob as camas. Por isso, tive-me com uma empregada doméstica da minha mãe, mesmo com todo o enojo, a princípio. Sabia que não era exatamente o que me faria sentir bem, mas atrevi-me a cobri-la numas noites de inverno quando o meu falo triste assim quis enveredar por suas entranhas sem gosto. A esse tempo, adquiri experiência e não me incomodava mais montar o seu corpo negro no escuro do quartinho dos fundos onde ela dormia, já que não me era imposto, como quisera que eu fizesse uma vez o meu pai, numa casa de mulher-dama.

O mais velho dos meus irmãos já se havia amasiado com uma balconista, empregada do nosso pai, para desespero da sogra, que o queria ver pelas costas. Mas, com o primeiro neto à porta de nascer, ela viu-se obrigada a aturá-lo em casa. Por causa disso, vagou uma cama, vá lá, uma esteira no nosso quarto, na qual o meu amigo estava deitado a esperar-me. Na verdade, como eu dormia no beliche de cima, no mesmo quarto com a minha irmã, dois anos mais velha, que dormia no de baixo, fez-se imperativo esperar pela madrugada para que eu pulasse ao quarto contíguo. E por que eu não escapuli pela porta? Porque o quarto ficava defronte à porta do quarto dos nossos pais que, quando não estavam fornicando, deixavam-na escancarada, e, obviamente, poder-me-iam surpreender saindo nas pontas dos pés. “Não, mãe, eu estava indo à cozinha beber água”, ou, “pai, estou indo mijar”, ou melhor, “me refrescar um pouco do lado de fora”. Como “me refrescar” não era coisa de homem, decerto ele repreender-me-ia com veemência. Eu ficaria nervoso e não saberia como me explicar. A uma altura dessas, o corrião já haveria cantado sobre as minhas costas. O melhor que fiz foi pular sobre todos os meus medos e sobre os fantasmas da madrugada, torcendo para não pisar na cabeça de outro irmão meu dormindo inocentemente de valete com outro irmão, mesmo correndo todo o risco de um deles flagrar-me em pleno ato desavergonhado com Arnaldinho. Para os padrões preestabelecidos de ética, com a boca na botija. Somente depois de adulto assumido, essa irmã, com quem eu dormia junto, confessou-me zombeteira que sempre soubera daquele meu passeio noturno para “estudar”. Engraçado. Ainda senti-me profundamente envergonhado, abracei-a com afeto e muito agradecido por todo o respeito que ela demonstrara por mim e pelas opções que fiz na minha vida, mesmo naquele tempo bronco quando um rapaz era induzido pelos amigos e pelo pai, o quanto antes, a provar sua masculinidade, e, de preferência, no “brega”. Ora, comigo não foi diferente. Meu pai levou-me, sem que eu soubesse, a um prostíbulo, antes mesmo de o meu desejo sexual aflorar junto com as espinhas, lá pelos 14 ou 15 anos, quando os pentelhos nascendo ainda eram novidade para se contar aos coleguinhas na Praça da Bandeira.

Dizia-me meu pai que “homem que é homem come até cabra no pasto”, depois eu não podia esquecer-me de coçar os colhões em público para demonstrar toda a minha valentia. Valentia essa que definitivamente jamais se instalaria dentro de mim. Mas para um pai extremoso e rígido como o meu era, não importavam os sentimentos ou a sensibilidade de um filho, portanto, não tinha por que me consultar sobre o momento adequado de eu frequentar aquele bordel e ter-me com uma mulher da vida. Levou-me com espalhafato e orgulho à casa de Maria do Mingau, uma quase velha, esquálida, ou apenas desgastada pelo trabalho duro e intermitente, que se jogou sobre mim, em trajes miúdos, sem qualquer tipo de aviso ou preparação. Senti apenas minhas pernas tremendo que nem vara verde, e um frio na “boca do estômago”. Bem me lembro que pensei em quantas vezes o meu pai estivera ali, servindo-se do serviço popular daquela mulher. Não eram à toa, então, as brigas constantes com a minha mãe por causa de suas camisas com cheiro barato da rua, o qual não pertencia a ela, como lhe dizia, porque jamais fora tão baixa. Agora entendo aquelas palavras que, ao tempo em que foram ditas, pareciam-me desconexas. Descobri ainda que eu tinha, além dos meus tantos irmãos, mais dois largados pelo mundo. Somente depois de o meu pai ir-se, quero dizer, depois de morto, esses irmãos da rua viriam à luz reclamar seus direitos: não mais que um quilo de açúcar, dois litros de óleo e um saco de farinha. As notícias de que o meu pai era homem rico passou por lá, depois das cercanias de Jequié, onde moravam os dois bastardos, já muito tarde.

De verdade, quando o meu pai chegou da Itália, acompanhando o pai dele, não passava de um menino esguio, de olhos de peixe, sem um tostão no bolso que não fosse dado por seu progenitor. Este, sim, trazia na bagagem boa fortuna, equivalente a 200 contos de réis, muito à época, nem sei quanto hoje, para se estabelecer na Bahia, precisamente em Poções, à Rua da Itália, fundada logo após a chegada dos gringos. Mais tarde, meu pai rumaria para Jequié, por ser um centro mais desenvolvido e afeito ao comércio. Abriu a firma Grisi & Cia e conheceu minha mãe, dona Ida Panarello, uma filha de italianos de outra leva de trequineses que, como o meu avô, atravessou o Atlântico num navio a vapor para tentar a sorte na América do Sul.

Meu pai, devido ao seu temperamento gastador e relapso, ficou com pouco, e o pouco com que ficou, se não fosse a intromissão enérgica de minha mãe, também o teria perdido nos negócios malfeitos e talvez com essa mulher tétrica, deitada sobre a cama de madeira forrada com uma colcha velha feita de retalhos coloridos, igual à manta com a qual se forrava a sela das donzelas. Uma vela queimava ao lado sobre uma mesinha manca como se estivéssemos em triste velório de algum pobre vizinho. De pouca valia foram os esforços da rapariga para fazer-me levantar o ânimo, somente o meu encabulamento e o choro. Chorei a gosto. Devolveu-me a meu pai dizendo-lhe que “seu filho ainda é muito verde pra ser iniciado”. Levei uma surra de cinto ao chegar em casa que quase me tira o coro das costas. Fiquei todo lapeado. Minha mãe não se atreveu a intervir desta vez e contestar a autoridade do marido, pôs-se a chorar.

— Esse moleque tem de honrar o nome que eu lhe dei; tem de aprender a ser homem nem que seja na vara! — disse ele enfurecido, sem saber quanta ironia havia nas palavras, porque na “vara” mesmo eu aprenderia.

Minha mãe levou as mãos aos céus:

— Giuseppe, homem de Dio! — disse apenas.

— A culpa é sua, Ida, que o trata como a uma donzela. Quem já se viu, um marmanjo destes dormindo com a irmã!

Minha irmã trancou-se no quarto, esperançosa de não ouvir os meus gritos desesperados e suplicantes. Chorava compulsivamente, qual fosse ela a sentir a dor das correadas que eu estava sentindo e por isso havia mijado na calça de fustão de ponta a cabeça. Nunca o perdoaríamos por aquela surra injustificável, apesar de ouvirmos sempre os amigos dizerem o quanto ele era um homem justo, honesto e generoso, e nem quando o enterramos, depois de um mal súbito, já octogenário, deixamos de nos indignar, misturando a mágoa em boa medida de farinha, sem passar a tábua, com a tristeza de perdê-lo ainda tão cedo. Minha mãe não o havia esperado. Foi-se, dez anos antes, atropelada na Capital, uma vez em que estava a nos visitar. Atravessou a rua, preocupada com um terçol que lhe incomodava o olho esquerdo, e esqueceu-se de olhar para os lados. Um ônibus a jogou longe e dois dias depois morreu no hospital Português. O senhor Giuseppe Grisi não se casou novamente; também não deixou de frequentar a casa de Maria do Mingau onde pretendera, num único dia, fazer de mim um homem.

Eu era apenas um menino que ainda não pensava nessas coisas do amor a sério. Importava-me somente com o brincar de “amarelinha, cabra-cega e esconde-esconde”. E mais dois anos haveriam de passar por mim até que eu conhecesse, no ginásio, o meu Arnaldinho Botelho. Minha mãe, muito superior a todos os tabus, fingiu até o seu último dia que não sabia sobre o fato de eu ser gay. Tratou sempre com doçura e carinho todos os amigos que levei para conhecê-la, e fazia questão sempre de frisar sobre o orgulho que tinha de mim, pela minha honradez e honestidade. “Pouco me importa”, dizia-me ela, “se um vizinho, ou qualquer outro ser ignaro, levantar um falso contra você, Andreas. Viva a sua vida do jeito que melhor lhe convier e não abaixe a cabeça àqueles que o olharem com desdém”.

Quanta falta faz-me neste momento a minha mama!

Arrependo-me de nunca ter confiado a ela esse meu segredo fechado. Segredo este que ainda só a mim pertence, apesar de o mundo estar a par do meu estado e da minha condição, visíveis nos meus gestos e no meu modo solitário de pintar a vida. Diante desse cavalete conclusivo, posso agora assumir que fui eu mesmo o mais preconceituoso de todos, muito mais do que o meu pai que, devido a sua criação formal e italiana, nunca pôde enxergar a leveza com a qual eu procurava direcionar os meus passos vacilantes. Fez vistas grossas e míopes. Nunca foi capaz de perceber que eu estava ao lado, apenas um pouco recolhido e inquieto, mas pronto a receber o afogo de sua mão. Em todo o caso, como somente hoje eu consigo distinguir esses sentimentos, talvez não estivesse tão próximo a ele quanto pensara, mas escondido dentro de mim mesmo, à mercê dos mais íntimos desejos e à margem do seu olhar vigilante. Bem como não fui capaz de aceitar e assumir o filho que aquela empregada negra da minha mãe dera-me posteriormente. Filho este que eu também não soube aconchegar nos braços e hoje vive pelo mundo, não sei onde, à espera do seu pai. Ou já um pai presente e afetuoso, do jeito que eu não pude ser.

Finalmente meu pai desistiu de levar-me ao meretrício.

Já noite, as luzes da cidade misturam-se à minha nostalgia, e lá acima dos umbuzeiros, às estrelas luzidias; e aos vaga-lumes e às muriçocas gigantes, que só aqui há iguais, em redor da casa, e agora da minha cabeça. Atendo ao chamado da minha irmã, “o jantar está na mesa!” Recolho-me à sala, resolutamente, mas deixo a um vento expresso, que virá em pouco, por detrás da casa, direto da Barragem de Pedra, a incumbência de balançar a rede vazia atrás de mim e de levar a minha história a outros interlocutores. Que sejam capazes de recriá-la e contá-la, porque sozinho não consigo. Ousem outros casos meus mais recentes ou mais antigos, expostos no bar da esquina, por toda a cidade, para apor em letras formais o que foi a minha vida até aqui.

Esse e outros contos integram o livro

"20 contos de réis e uma paixão indeterminada".

Achel Tinoco é poeta e escritor.


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