• Armazém na Estrada

Cadê a Cama?

um causo por Vítor Dandi



Ainda lembro, pois não faz muito tempo, no início da noite de uma sexta-feira, véspera de um feriado prolongado: meu telefone tocou… O aparelho mostrava ser assunto de trabalho, um chamado para me avisar que havia plantão a ser feito.

Já ao telefone, pude constatar a urgência dos fatos. Era um mandado de reintegração de posse, tendo eu que afastar uma mulher da casa, antes intimá-la a deixar o imóvel sob pena de desocupação forçada.

Saindo de casa a caminho do fórum, chamou-me a atenção a enorme lua exposta rente ao horizonte; seu brilho formava um caminho de luz sobre o mar a minha frente. Ouvi algo a respeito: naquela noite, seria observada em nosso céu a tão aguardada superlua. Balneário Gaivota estava tranquila e quieta, seus turistas ainda não a ocupavam, pois era início de primavera, e apenas seus parcos moradores a saboreavam. Havia alguns casais caminhando no calçadão da iluminada beira-mar, assim como jovens praticando esportes ou simplesmente passeando com seus animais de estimação. A temperatura estava agradável, e alguns bares da orla já ofereciam aquele chopinho gelado.

A cidade litorânea que escolhi para morar e viver pertence à comarca na qual exerço a função de oficial de justiça, cuja sede dista apenas uns oito quilômetros. São apenas alguns minutinhos de um percurso tranquilo até o fórum da cidade de Sombrio, no sul do estado de Santa Catarina.

Ainda durante a viagem, a advogada do requerente informou-me, por mensagem, que a intrusa estaria descontrolada, sendo necessária toda a cautela possível.

Chegando ao fórum, dei uma rápida lida no processo. Tratava-se de um casal que havia se divorciado já fazia alguns meses, tendo até mesmo sentença homologatória do feito. Conforme a partilha, de comum acordo, ele permaneceu morando em minha comarca; ela começou vida nova na capital do estado.

Ocorre que, ao ter conhecimento de que seu ex-cônjuge havia levado a atual companheira para morar com ele, a requerida, enciumada, prontamente saiu de sua casa, na outra cidade, invadindo e ocupando a casa do sujeito, pondo a atual companheira e ele para correr.

Ao chegar, fui muito bem recebido, com cordialidade e respeito. Depois de ouvir pacientemente a versão da mulher, bem como os motivos que a fizeram agir de forma tão agressiva e hostil, intimei-a a deixar o imóvel em 24 horas.

Após esse prazo, ela cumpriu a ordem, porém a cama do casal nunca mais foi encontrada.

Detalhe sobre a idade das partes: ela, 89 anos; ele, 90.



Vítor Dandi é cronista e Oficial de Justiça

do Tribunal de Justiça do Estado de

Santa Catarina, comarca de Sombrio.

Organizador da coletânea Causos de Oficiais de Justiça:

"O referido é verdade e dou fé"

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