• Armazém na Estrada

Advogada do interior em início de carreira

um conto por Débora Lima


Amélia se esticou para espantar as dores musculares que denunciavam a qualidade do seu colchão; eram seis da manhã e já era dia claro, e, como sempre, havia um mês desde que fizera seu juramento na subseccional da OAB em sua cidade e a ansiedade para atuar na área de sua formação era tanta, que suas pernas chegavam a tremer.

Enquanto se banhava, tomou uma resolução: iria ao Fórum, de nada adiantaria ficar em casa aguardando ser procurada por alguém, não tinha escritório, não era amante das redes sociais, não tinha amigos empresários, ou quaisquer conhecidos influentes que pudessem indicar ou requisitar seus serviços, mas precisava ser vista para ser lembrada, e, quem sabe um dia, reconhecida por suas habilidades e conhecimento. Amélia pensava no que iria vestir, quando se lembrou de quando era criança, lembrou que, à noite, enquanto chovia, arrastava seu colchão e se posicionava sob uma goteira, só para sentir os pingos da chuva, sua mãe sempre se queixava daquele buraquinho no telhado, mas, aquela mulher tão simples que só queria proteger sua filha do frio e da ignomínia que a pobreza traz, não sabia que, com um raiozinho de luz do luar, por aquele espaço mínimo, os sonhos entravam e seguiam, pouco a pouco, tomando conta da alma de menina de Amélia, que observava os mínimos grãos de poeira em movimento e imaginava crianças dançando no ar, sonhava com uma casa onde houvesse cama, aparelho de “TV” e um lindo jardim, sonhava em existir.

Chorou um pouco, era difícil não se emocionar ao pensar em tudo que passara para chegar até ali. E as lembranças ainda alimentavam os medos do tempo presente e o receio de não ter força para vencer os desafios à frente. A cada vez que saía à rua, quando comprava uma roupa barata que pudesse, em sua simplicidade, servir para trabalhar, (era tão difícil se vestir bem sem ter dinheiro, e, no entanto, se vestir de maneira sóbria era inerente à sua profissão), ao olhar para os vizinhos, que não lhe davam crédito... (E como poderiam num mercado tão competitivo, cujas habilidades dos profissionais são medidas pelas aparências, confiar suas querelas a uma jovem de vinte e dois anos que pagou sua faculdade trabalhando num balcão de mercearia?) e tudo, absolutamente tudo naquela cidade lhe parecia contrário, as pessoas não confiavam em advogados que não tivessem carros, que não tivessem ternos caros, que não usassem o Iphone mais moderno. Na verdade, para aquele povo simples, o advogado não era um ser iluminado pela sabedoria adquirida com muito esforço e dedicação, cujos conhecimentos tão caros pudessem ajudar a restabelecer uma situação de Direito que fora violada ou que estivesse sendo ameaçada, mas não passava de um vilão, uma ave de rapina ávida por abocanhar vinte ou trinta por cento do que lhes pertencia, e caso se tratasse de uma mulher então, de uma mulher jovem demais para aparentar saber qualquer coisa... O mundo não foi educado para enxergar o tesouro que as pessoas trazem no coração, o grande problema de ter um patrimônio que seja intangível é que ele também é invisível e não impressiona ninguém...

Com os músculos ainda travados pelo medo, Amélia afastou os maus pensamentos e rezou a Deus uma prece, pediu força para levantar, pediu para não ser paralisada pelas circunstâncias de seu nascimento, de sua criação, pediu para que seu esforço pudesse abrir espaço entre o preconceito e para que sua voz se fizesse ouvir além dos becos por onde ecoava seu choro de criança. Pediu para ser um arauto que clamasse pela justiça, uma voz que se destacasse entre a multidão em louvor da liberdade, em defesa da vida...

Calçou seus sapatos baratos e seguiu seu caminho, quinze minutos a pé, até o Fórum da Comarca de Vitória de Santo Antão, se dirigiu ao balcão da secretaria da Vara Criminal, perguntou se haveria audiência naquela manhã, com a resposta afirmativa em mente, voltou para o corredor e sentou-se, torcendo para que, em havendo necessidade, recebesse uma nomeação had hoc: assim, poderia se fazer útil, assim, poderia levar algum dinheiro para casa, quem sabe, ao menos, o necessário para a parcela do financiamento estudantil...

De repente, um servidor com a expressão de quem está com pressa, perguntou: - Dra. Amélia, a senhora poderia participar da próxima audiência de instrução e julgamento, porquanto o Defensor Público não pôde comparecer, e o MM. Juiz está nomeando a senhora para acompanhar o ato.

Com o estômago doendo de nervosismo, Amélia, respondeu: - Claro, posso ter vista dos autos?

Amélia entrou na sala de audiência, observou a posição da mesa, defesa à esquerda, defesa à esquerda, defesa à esquerda, o medo de errar o lugar de sentar era imenso, denunciaria desconhecimento acerca da triangularização processual, não podia passar esse vexame. Pediu licença e sentou.

A audiência se iniciou, seguindo normalmente seu curso, a cada testemunha ouvida, se confirmava a materialidade delitiva e tudo apontava para a autoria do agente, de modo que, ciente de que a defesa técnica é meio indispensável para um julgamento sem nulidades, não sabendo como fazer perguntas quaisquer que pudessem favorecer o acusado, Amélia, se reservou a não dizer nada, quando, de repente, o acusado se levantou: - Doutor, não dá para o senhor arrumar um advogado melhor para mim não, essa menina não está dizendo nada, assim vou me prejudicar!

Diante da recusa pela parte de receber a assistência de Amélia, o juiz, com toda deferência pediu desculpas, mas, determinou ao escrivão que fizesse constar em ata que precisaria redesignar o ato.

No entanto, tomada por um impulso daqueles que determinam o curso de uma existência, num único instante, não resistindo, Dra. Amélia fechou os olhos e bradou, quase musicalmente:


Eu sei que uso roupa barata

E sei que minha história é sofrida

Mas isso não faz vazia a minha luta

Nem pobre a poesia em minha vida


Eu sei que preconceito existe

E que a vida às vezes diz não

Mas isso não calará meu grito

Ou a nobreza em meu coração


Não estou aqui só porque quero

Estou aqui, senhor, porque acredito

E se um ato mau leva ao inferno

Um ato bom nos restitui o paraíso...


O acusado achou estranho, talvez a menina fosse louca, e não entendeu realmente de que ela estava falando, mas de ver a moça de pé, levantou-se e foi logo falando: - Doutor juiz, pode deixar a advogada aí, ela não parecia falar, mas fala e sua fala é boa, não entendi o que disse, mas já me sinto mais defendido, não entendo muito de rima, mas juro que ela falou bonito.

Amélia conseguiu se recompor e até formulou umas perguntas, que lançavam, à luz da lei, dúvidas sobre a materialidade da conduta, o agente se sentiu melhor, o juiz ficou aliviado, o representante do MP se abismou com as palavras da advogada, que, além de fazer rima, era bela e profissionalmente dedicada...

Quando terminou a audiência, Amélia se sentia exausta, mas lhe valera a experiência, além de sair alegre com uma cópia do termo na mão (um título executivo judicial) e no peito um agitado coração (depois do susto de quase não ter conseguido), foi para casa estudar mais um pouco, para estar sempre preparada, porque de fácil não há nada em ser mulher pobre e advogada em início de carreira numa cidadezinha do interior.


O presente conto integra o livro 'Só pode ser cinismo'.

Para adquirir: https://loja-da-hope.lojaintegrada.com.br/so-pode-ser-cinismo


Débora Lima é poeta e escritora. Autora dos livros:

O prato triste da discórdia (e outros

contos quase sempre tristes): Adquira!

Enquanto o instante existe (poesia): Adquira!



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