• Armazém na Estrada

A invenção do 7 de setembro

Atualizado: Abr 25

por Moisés Morais

Independência ou morte, tela pintada por Pedro Américo em 1888.

Para quem vivia no Brasil, em setembro de 1822, o chamado grito do Ipiranga não se apresentou como um acontecimento importante. De imediato, nenhum jornal publicou em suas páginas registros sobre esse episódio. O próprio D. Pedro I, em cartas escritas no dia 8 e no dia 22, esta última endereçada ao seu pai, não fez qualquer menção. Somente no dia 20 de setembro houve um breve comentário publicado no jornal governista O Espelho, que faz uma alusão ao grito do Ipiranga como “o grito acorde de todos os brasileiros”. Foi a partir de 1826 que o 7 de setembro foi incluso no calendário oficial de celebrações da “independência” do Brasil.

Em grande medida, a atribuição do 7 de setembro como uma marco da ruptura do Brasil com Portugal corresponde a um sentido inventado em uma tarefa a que se dedicaram os republicanos, pós-1889, no esforço de erguer símbolos que pudessem afugentar a possibilidade de uma restauração monárquica da dinastia portuguesa. Solidário a essa perspectiva se desenvolveu o ensino de uma História tradicional, tratando o processo de independência a partir da conjugação entre data, fato e herói, sem reservar espaço para problematizações. Esse tipo de abordagem não é impossível de ser localizada ainda hoje em iniciativas que não incorporam o acúmulo de pesquisas desenvolvidas, principalmente, a partir da segunda metade do século XX.

O quadro pintado por Pedro Américo, popularizado através de livros didáticos, não pode ser ignorado nesse processo, apesar de ser eivado de imprecisões históricas: os homens que acompanhavam D. Pedro I não montavam em cavalos, mas em mulas, e também não vestiam uniformes de gala. Sem falar do fato, que se tornou anedótico, que põe em xeque a elegância e imponência em que D. Pedro é representado, uma vez que príncipes também sofrem desarranjos intestinais e utilizam, sem escusas, matagais a beira do caminho para lhe servir de grande refrigério.

Em todo o caso, o Brasil se apresenta como um exemplo peculiar de ex-colônias na América Latina ao se tornar “independente” e manter um regime monarquista e a unidade territorial. Isso não significa que não houvesse a possibilidade de que o território da ex-colônia portuguesa sofresse divisão, dando lugar a mais de um Estado-Nação de caráter republicano. No entanto, as elites se anteciparam diante de tal ameaça e buscou afastar o controle português, que era inconveniente aos seus interesses, sem que isso desse oportunidade para o desenvolvimento da participação das camadas mais pobres da população na luta anticolonial.

Mas, na esteira desse processo, outro elemento se apresenta e que somado aos demais permite questionarmos: ao deixar de ser uma colônia portuguesa, o Brasil conquistou sua independência? A submissão política e econômica das elites aos interesses estrangeiros, obviamente que extraindo benefícios disto, permite afirmarmos que não. Tal submissão, em grande medida, foi desencadeada pela tomada de empréstimos junto às potências internacionais e de um consequente endividamento do Estado.

faz de conta que o brasileiro bilionário e o brasileiro morador de rua são exatamente iguais, apenas por terem nascido no mesmo país

O primeiro desses empréstimos foi contraído com a Inglaterra no valor de 3 milhões de libras, para que fosse pago uma espécie de indenização ao Governo português para que este não reivindicasse mais o Brasil como sua colônia. Com isso, sacramentava-se a dependência do Governo brasileiro aos interesses da Inglaterra e de uma sucessão de novos empréstimos que tornou o Brasil, principalmente, ao longo do século XIX, uma área de dominação do Capital inglês.

Os credores no século XX se diversificaram, mas a lógica de subordinação se manteve. Vários episódios simbolizam isso, como a entrega das rendas alfandegárias aos credores ingleses pelo Governo Campos Sales; abertura para a instalação de indústrias multinacionais no Governo de Juscelino Kubitschek; o golpe de 1964 e o regime ditatorial que veio na sequência; as privatizações no Governo de Fernando Henrique Cardoso; a rendição dos Governos Lula e Dilma à especulação financeira internacional e, mais recentemente, o entreguismo das riquezas nacionais às potências estrangeiras pelo governo Bolsonaro.

Diante disso, enquanto o Estado brasileiro continuar se subordinando ao mercado financeiro e entregando empresas públicas e as riquezas nacionais para potências internacionais será flagrante que o Dia da Independência ainda não surgiu. O 7 de setembro continuará sendo uma invenção útil apenas para reproduzir o culto ao Estado e a um ideário que faz de conta que o brasileiro bilionário e o brasileiro morador de rua são exatamente iguais, apenas por terem nascido no mesmo país.


Moisés Morais é Historiador e Professor. Mestre em História pela UNEB.


407 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo