• Armazém na Estrada

A grande decisão

um conto por Débora Lima

Fotografia de Manuela Cavadas

Agitada por uma ira incontrolável, dona Dália lavava os pratos, passava roupa e fazia a janta de Osvaldo que logo chegaria de Recife, onde era motorista de ônibus e trabalharia até à noite na escala daquela quarta-feira, só chegaria às dez.

—De hoje não passa, não aguento mais, vou acabar com essa droga...

Contava os minutos para a grande explosão, seu cansaço havia chegado ao limite, não conseguia sequer respirar sem sentir um fardo gigantesco, não suportava mais, sendo tão pequena, trazer o mundo inteiro às costas. Ser a coluna de sustento daquele sistema sem recompensa que era seu lar, o cuidado dos filhos adolescentes ingratos, e daquele homem não mau (tampouco bom o bastante) que era seu marido, tornara-se insuportável.

Osvaldo era, na verdade, um gigante, na sua simplicidade era feliz, estava satisfeito de poder, ao fim do mês, fazer uma feira modesta para abastecer a dispensa daquela casa simples onde moravam de aluguel, era feliz com seus filhos imperfeitos e sua mulher quase perfeita a quem tanto amava, desde o começo. Há muitos anos, Dália fora para ele o fôlego de vida que lhe faltava, o motivo certo para acordar cedo, e dormir tarde... Era um dos poucos homens cuja alegria plena estava em chegar em seu lar humilde e desfrutar de uma intimidade pueril com uma mulher comum a si. Naquela pequena flor exaurira-se todo instinto de caça daquele homem, e nada lhe faltaria desde que não lhe faltasse sua Dália.

Não obstante isso, Dália não o queria mais, estava decidida, não passaria daquele dia. Não calaria mais o ódio jamais exposto daquela casa estreita de terreno confinante deveria ser proibido, deveria ser totalmente proibido essas paredes juntas e as vozes irritantes de vizinhos indesejáveis invadindo os poucos cômodos desse chiqueirodizia para si, e se refutava, pois era tão limpa e cheirosa aquela pequena casa onde criara seus três filhos, amofinados num único quarto que existia, além do quarto do casal... Ainda lembrava o dia em que se soubera grávida do terceiro filho, tudo que pensava era: “vamos precisar de um beliche”

No fim das contas, não havia valido a pena acreditar que viver de amor bastaria, não poderia imaginar que o amor se transtornaria para um compromisso infindável de lavar, passar, balançar, cozinhar. E, no mais, aquele homem tão decente e dedicado a ela, jamais o fora a ponto de compreender que ela precisava de mais, de algo mais para si, que não lhe bastavam as panelas e os filhos: queria estudar, viajar, ter belos vestidos, voltar a pintar-se. Não conseguia compreender como o fato de ter decidido ser uma boa mãe, havia lhe roubado a beleza de forma tão cruel e implacável, -esta não sou eu, fui arrancada de mim mesmoconcluía, triste e enojada.

Soluçando de angústia, num choro convulsivo e cheio de rancor, enxugou o rosto com o braço e admitiu para si que a culpa era dela, não devia ter permitido tamanha tormenta em sua alma. Era tudo consequência de seu desleixo, deveria ter voltado a estudar, ter arrumado um emprego: seu Osvaldo não a impediria, afinal, era um homem bom, com maus hábitos, é verdade, e um pouco acomodado... Era como uma criança à qual não impuseram limites, ela vai até onde lhe é permitido, às vezes é abusada... Mas era bom.

Mas, era tarde demais, estava decidida e não suportaria nem mais um dia sequer daquela vida imprestável e sem significado, precisava fazer algo diferente e cheio de grandeza, iria aonde fosse, mas sairia daquele ambiente que tanto dependia de seus esforços físicos e nenhum deleite lhe trazia à alma.

Sentou-se à mesa, olhou para o relógio, já estava chegando a hora de Osvaldo adentrar pela porta estreita da rua. Naquela noite ele receberia o prêmio de sua negligência, de sua incapacidade de perceber que aquela mulher merecia mais, que sua estatura não prenunciava a sua ambição. No mais, Dália nem sequer compreendia como havia suportado por tanto tempo aquela vidinha, aquela rua, aqueles vizinhos e aqueles filhos que, mesmo tendo sugado toda sua saúde, eram ingratos, imprestáveis, e até feios demais para serem uma razão que a fizesse desistir de seu intento glorioso e libertário.

Mediante o barulho de chaves, portas, passos, o coração de Dália parecia não caber mais no peito, batia sôfrega e dolorosamente...

—Minha filha? Cheguei...

—Oi Osvaldo, preciso falar uma coisa com você...

—Ô, Dalinha, estou tão cansado, mas diga, minha filha, enquanto tomo banho para jantar, estou morto de fome...

Os dois seguiram para o quarto, Osvaldo à frente, Dália atrás, observando aquele andar de homem exausto, nem de longe era aquele jovem viril que a arrebatara, há tantos anos, aos seus maiores idílios. Mas era o corpo frágil e flácido de um homem que, desgastado pela crueldade dos anos, jamais permitiu que se esvaísse o zelo por seu lar.

Enquanto se despia, observava sua esposa sentada à beira da cama, com um olhar injetado de ternura:

—Diga, minha filha, minha princesa, o que a preocupa, é alguma coisa com os meninos?

—Não, não é isso...

—Mas o que foi, fale, o que incomoda você...?

—É a carne, a carne acabou, não sei o que fazer para o almoço de amanhã.

—Mas ainda faltam dez dias para fazermos feira, vou comprar uns ossos, você me prepara um cozido, que venho almoçar em casa amanhã.

—Tudo bem, complemento com ovos.

—Ótimo, minha filha, você é uma bênçãos.

Dália voltou para a cozinha, colocou a janta, jantou com seu marido em silêncio. Sua fúria, sublimada, subia junto à fumaça da sopa. Osvaldo, homem simples que era, de nada se apercebeu, por nada se inquietou.

Foram para o quarto abraçados, como dois idosos felizes por terem tido o direito de envelhecer, dormindo diuturnamente ao lado do ser amado. Osvaldo deitou e dormiu, de imediato, o denso sono dos justos. Dália ficou ouvindo o barulho dos vizinhos que namoravam no quarto ao lado.


Débora Lima é poeta e escritora. Autora dos livros:

O prato triste da discórdia (e outros

contos quase sempre tristes): Adquira!

Enquanto o instante existe (poesia): Adquira!

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