• Armazém na Estrada

A cor da consciência

um ensaio por Achel Tinoco


Hoje a minha consciência acordou, por assim dizer, desiludida, sem brilho, taciturna. Talvez por causa do tempo lá fora, sombrio, desrespeitoso, sem humanidade, com excesso de saudade. A chuva ácida de retrógrados pensamentos talvez a tenha deixado sem cor, sem viço, sem vida. Mas continua sendo a minha consciência, mesmo sem uma identidade colorida. Também eu não queria que ela fosse um arco-íris, nem uma palheta que se insurge ao amanhecer boreal. Não. A minha consciência tem a cor da minha consciência, às vezes nebulosa como nos olhos de um morto tardio; noutras vezes, cristalina como uma nuvem solitária aos olhos da menina que vive num mundo austral. Mas nunca, eu lhes garanto, nunca ela se evidenciará por uma textura concreta, por uma cor berrante, para que até os 'cegos' possam distingui-la no meio da multidão. Não. Refuto qualquer consciência de cor — negra, branca, verde, azul, amarela —, sob as lentes de contato das nossas íris tão 'despreconceituosas'...

A minha consciência está tranquila.

Assim sejamos educados, sempre conscientes de nossa plena consciência. E que a consciência de cada um não precise ser reparada. Mas, se ainda você acredita que a consciência deve ter cor, é bem provável que também possa ouvir a cor do som, pintar a cor do vento, beber a cor dos sentimentos, sonhar com a sua alma multicor e, acima de tudo, vestir, definitivamente, a cor lodenta da Ignorância.


Achel Tinoco é poeta e escritor.


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